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Mostra na Pinakotheke Cultural reúne 60 obras de Wesley Duke Lee

Por

Alessandra de Paula, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Precursor de várias manifestações artísticas, como happenings, performances e instalações, e dono de uma biografia para lá de inusitada, Wesley Duke Lee é pouco conhecido pelas novas gerações, já que a última grande exposição com suas obras aconteceu há 18 anos. O público carioca, contudo, voltará a ter contato com a instigante arte de Duke Lee a partir de quarta-feira, quando a Pinakotheke Cultural abre uma mostra com 60 obras, entre desenhos, pinturas e instalações. A ideia do tributo partiu de Max Perlingeiro, diretor da Pinakotheke e admirador do artista.

Em uma conversa com Duke Lee em 2006, sugeri uma exposição na filial da Pinakotheke em Fortaleza, mas me dei conta de que ele nunca teve uma grande mostra no Rio recorda o curador. Quando divulgamos a notícia da exposição, muita gente se dispôs a emprestar material. A família também permitiu que pesquisássemos o acervo.

A mostra é dividida em quatro ambientes, dos anos 50 ao fim dos 90. Várias obras inéditas fazem parte da exposição, como o making of da performance realizada em 1963 pelas ruas de São Paulo com a pintora Maria Cecília Gismondi, filmada por Otto Stupakoff. A performance é considerada histórica, e o filme de Stupakoff, junto às pinturas da série Ligas, integrou o primeiro happening feito no Brasil, organizado por Duke Lee no João Sebastião Bar, em São Paulo, em 1963.

Eles filmaram a Maria Cecília andando na rua, entre os bêbados e mendigos, depois projetaram as cenas numa tela de papel. De repente, ela se jogou na tela, rasgou o papel e simulou um strip-tease descreve Perlingeiro. Até a polícia e os bombeiros foram chamados para conter a multidão.

A exposição terá ainda obras emblemáticas como O um (o macaco), O nome do cadeado é: as circunstâncias e seus guardiões, e Yukiko-e (a zona 19 a 45) um políptico com quase quatro metros de comprimento, exposto em Tóquio, em 1965. O próprio Duke Lee estará presente, simbolicamente. Em uma das salas serão exibidos trechos de uma entrevista concedida para a TV Cultura em 1991, e na entrada da exposição o público é recebido por uma projeção em vídeo, com o artista plástico de braços abertos.

Ele não poderá comparecer, já que está com mal de Alzheimer, mas é importante que esta homenagem aconteça agora, quando ele ainda está vivo sublinha o curador. Neste momento estamos vivendo uma redescoberta da nova figuração, e Lee, que influenciou uma geração inteira, não pode ser esquecido.

Descendente de americanos e portugueses, Duke Lee estudou publicidade na Parsons School of Design, em Nova York, completou os estudos na Itália e em Paris, e passou um período no Japão. O contato com tantos lugares e influências artísticas foi marcante. Em 1954, estudando em Nova York, conheceu Marcel Duchamps e outros artistas desiludidos com a Europa. De volta ao Brasil, ele abriu um ateliê em São Paulo, e começou a se sentir um outsider na cidade onde nasceu. Em 1966 fundou a Rex Gallery, ao lado de Nelson Leirner, Geraldo de Barros, Frederico Nasser, Carlos Fajardo e José Resende, para lutar por espaço no mercado.

O assunto Rex já foi tema até de mestrado. O movimento foi importante para marcar o desejo de autonomia dos artistas, mas, comercialmente, não deu em nada e se dissolveu conta Perlingeiro.

Fatos na biografia de Wesley Duke Lee parecem cena de filme, mas realmente aconteceram. Ele foi cobaia de testes com LSD e produzia sob o efeito do ácido. Duas destas obras, Limpeza e Save dire que ce lá... não estão na mostra. Ele também tentou viver numa comunidade de artistas numa ilha do Mediterrâneo e foi à Suécia para pedir conselhos ao cineasta Ingmar Bergman.

Duke Lee queria fazer cinema, e foi de Vespa até a Suécia falar com Bergman relata Perlingeiro. Lá, o cineasta disse que não queria nenhum contato com pessoas da América do Sul. Depois disso, ele desistiu de ser cineasta. Além de artista extraordinário, ele era uma figura especial, um mulherengo, um dândi, e, mais do que isso, um homem de ideias.