Indústria erótica tenta fugir da crise causada pela pirataria

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Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO - Para os bilionários da indústria de entretenimento adulto, os últimos meses não têm sido fáceis. Atingido em cheio pelo crescimento do download ilegal, da pirataria e dos sites de compartilhamento de vídeo, o mercado de filmes eróticos, que já movimentou U$ 13 bilhões anuais apenas nos EUA, sofre para reencontrar o lucro do passado. Adaptando-se aos novos tempos, a produtora e distribuidora francesa Marc Dorcel, famosa por ter inventado o subgênero pornô chic (produções de alto custo com modelos glamourosas e cenários luxuosos), tenta frear a ameaça do streaming gratuíto e da pirataria com dois projetos inovadores.

Em fevereiro, a empresa seguiu o exemplo de James Cameron e apresentou em Cannes, balneário que sedia o maior festival de cinema do mundo, o longa Kama sutra, primeira produção para adultos inteiramente feita em 3D. Dois meses mais tarde, foi ainda mais longe, lançando no mercado o revolucionário pornô participativo formato que, pelo seu sucesso instantâneo, começa a ser visto como a salvação da indústria. A produtora ofereceu aos clientes a chance de financiar seus próprios filmes em um sistema de micromecenato, no qual eles são autorizados a palpitar desde a escolha do elenco a elaboração do, digamos, roteiro. A empresa parece ter acertado na mosca: apenas 78 horas depois do anúncio do projeto no site oficial, arrecadou quase 90 mil euros.

Sempre tentamos sair na frente explica afirma Grégory Dorcel, atual diretor da empresa e filho do fundador, por telefone, de Paris, ao Caderno B. Fomos os primeiros a lançar filmes em vídeo na Europa e também a explorar as possibilidades da internet. Acreditamos que a web não traz o fim da indústria, mas uma mutação natural. Desta vez, queríamos ir mais longe na relação com os internautas, ultrapassar as plataformas clássicas. Em vez de propor apenas que acompanhassem uma produção, abrimos as portas para que participassem da fabricação de um filme.

O primeiro longa erótico participativo da história, Mademoiselle de Paris, iniciou suas filmagens em junho e deverá ser lançado em DVD até outubro. Um site (Mydorcel.com), criado especificamente para o projeto, mostra a imagem do fundador da empresa, o veterano Marc, em uma alusão à célebre imagem de do Tio Sam. Conhecido como o rei do pornô francês, o senhor de ar libidinoso aponta para o internauta, sobre os dizeres: Marc Dorcel wants you .

O nível de participação foi definido de acordo com o valor investido pelos financiadores, que vai de algumas dezenas até milhares de euros. As vantagens podem ser mínimas uma simples menção nos créditos ou um acesso aos bastidores. Apenas aqueles que investirem a soma máxima (10 mil euros) poderão colaborar na feitura do roteiro e na produção completa de uma cena. Os espertinhos que pretendem participar ativamente das filmagens emprestando seu próprio corpo não devem se iludir: a opção ainda não está disponível. Todos os investidores, contudo, ganham o direito de votar no elenco de atrizes através do site. E, a partir de 60 euros, leva-se uma porcentagem nas receitas.

O resultado superou nossas expectativas admite Grégory. Tanto que havíamos pensado em limitar a participação a 85 euros e acabamos decidindo fixar em 10 mil.

O 3D é outra aposta forte da Dorcel. A primeira experiência apareceu no início do ano, com a apresentação de Kama sutra. Um catálogo com filmes disponíveis para o grande público em DVD sai ainda este mês.

Já durante o desenvolvimento percebemos que seria uma experiência sem precedentes. Os técnicos pareciam crianças durante os testes. É tão real, parece que as atrizes estão sentadas em seu colo exagera Grégory. A passagem do 2D para o 3D causa um deslumbramento semelhante à mudança do preto e branco para a cor.

Quem apostou no gonzo perdeu

A internet não escolhe suas vítimas. Nos últimos anos, a rede mundial tem reorganizado, indiscriminadamente, as bases da indústria cultural como um todo. Mas, no que diz respeito ao audiovisual, os produtores pornográficos parecem ser os mais atingidos. Com a multiplicação dos sites de compartilhamento de vídeos para adultos, como o PornTube e o RedTube, o consumo da pornografia mudou radicalmente, deixando as produtoras em maus lençóis.

A internet trouxe um público diferente avalia a pesquisadora Maria Elvira Diaz-Benitez, autora do livro Nas redes do sexo: os bastidores do pornô brasileiro, ampla investigação antropológica sobre a indústria, recém-lançada pela editora Zahar. Os vídeos são mais curtos e podem ser vistos por cenas individuais, além de serem divididos por nichos, desde o gay a categorias rotuladas como bizarras , como bestialismo e escatologia. E também disponibilizam material amador de forma gratuita, que acabam concorrendo com filmes profissionais das produtoras.

Popular a partir dos anos 90, o gênero gonzo (filmes de sexo sem história ou roteiro, filmados numa estética realista, no limite do amadorismo) adaptou-se perfeitamente à transmissão em streaming: seu público está mais interessado no consumo rápido e não exige maior qualidade de imagem. Por seus baixos custos, o estilo foi adotado em massa pelas produtoras, que começaram a ter prejuízos quando os sites de compartilhamento passaram a disponibilizá-los gratuitamente (sem se importar com os direitos autorais). Por outro lado, empresas que apostam em produções caras e elaboradas, como a Marc Dorcel, tiveram menos dificuldades, já que seus apreciadores preferem pagar para vê-las em boa resolução.

Já faz sete anos que, ao contrário das outras produtoras, nossas vendas dobraram comemora Grégory Dorcel. Os filmes gratuitos em streaming são um problema para a indústria, mas ainda é difícil dizer a que ponto. Se a Dorcel tivesse, como os outros, apostado no gonzo, talvez não se encontrasse tão bem.

No Brasil, a crise é grande. A locação de filmes de gênero caiu quase pela metade nos últimos dois anos. A antes poderosa Buttman Brasil deixou de produzir e há boatos de que a Brasileirinhas pode seguir o mesmo caminho. Em seu livro, Maria Elvira expõe a tese de que o problema possa estar no tipo de produção em série realizada no Brasil, muito homogênea e pouco criativa.

A culpa não é só da internet acredita a antropóloga. Mas não sou apocalíptica. A indústria já sofreu crises antes e soube criar novas soluções.