Contra o amordaçamento da liberdade

Por

Macksen Luiz, Jornal do Brasil

RIO - Esta adaptação de A religiosa, baseada no romance oitocentista do francês Denis Diderot, é surpresa nesta temporada pelo modo silencioso e reservado como foi gestada, até chegar ao palco com a inteireza de uma criação elaborada. Não é propriamente uma proposta com pretensões de experimentar o alcance de linguagens, ou de interferir em qualquer cânone. É, tão-somente, uma encenação que estabelece suas bases em campo bem aplainado, e que estabelece eixo em torno do qual desenvolve ideia visual que a impulsiona. A começar pela versão de Maria da Luz, que transpõe o original, condensando a narrativa, mantendo o caráter de libelo contra o amordaçamento da liberdade.

O monólogo confronta uma jovem consigo mesma, movida pela rejeição familiar e pelos perversos ritos sociais e religiosos, em permanente reafirmação da individualidade, que lhe é negada a cada revés. A encenação de João Marcelo Pallotino transfigura a síntese textual em múltiplas imagens de confinamento, crescentemente restritivas, encapsuladas, asfixiantes. Já na entrada, o público fica diante de figura envolta em tiras de pano, impedida de movimentos, sem rosto, sem fala, atada ao silêncio. Em seguida, através de dispositivo cenográfico de enquadramento translúcido, a figura reaparece, em gestos disformes, demarcados pela elasticidade. E ao longo das tentativas da jovem entender as pressões que a esmagam, sombras e perfis enfrentam a autoridade discricionária da hierarquia religiosa, sucumbem às sensações contraditórias do prazer, condenadas à incompreensão dos atos de tortura.

O arcabouço visual é complementado por sonorização que projeta, de maneira gutural, a voz da atriz, provocando efeito de estranhamento que acrescenta uma outra e vigorosa referência dramática. O trabalho corporal também está à serviço do drama, e não a exercícios estetizantes. A cenografia de Leo Bungarten, ao lado da iluminação, é o ponto de inflexão, no seu construtivismo integrado à interpretação, sem aquele aspecto de instalação , que, algumas vezes, ganha insustentável independência. O dispositivo visual apoia a tensão emocional da religiosa , sem cair numa relação decorativa. Symone Strobel, sustentada por esse aparato exterior, constrói interioridade interpretativa, que traça com nitidez e tensão percurso de ansiedade, roteiro de desencontros, vivo mapa de incompreensão.