Explosões líricas e singulares
André Duchiade, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - Quandos tomadas separadamente, as obras de Alberto Magnelli (1881- 1971) podem ter semelhanças com diferentes correntes artísticas do século 20. Movimentos como cubismo, futurismo, expressionismo, construtivismo e realismo influenciaram várias fases da carreira do pintor. Quando analisado como um todo, no entanto, fica claro que seu caminho sempre foi único. A partir da próxima terça-feira até o dia 4 de julho, o público carioca terá a oportunidade de conhecer as muitas facetas dessa obra no Centro Cultural Banco do Brasil na mostra Alberto Magnelli.
Com curadoria do belga Daniel Abadie, catedrático de história da arte da Universidade Livre de Bruxelas, a exposição reúne 72 pinturas a óleo de Magnelli realizadas entre 1912 e 1969. Apresenta desde quadros da juventude do pintor, nascido em Florença em 1888, até obras feitas dois anos antes de sua morte. A maioria das pinturas veio de acervos da França e da Bélgica, e quadros de coleções particulares e instituições brasileiras completam a exposição.
Nascido em uma família rica e colecionadora de peças de arte, Magnelli começou seu estudo artístico de forma autodidata, tendo como maiores influências mestres do Renascimento italiano, como Giotto, Ucello e Piero della Francesca. O primeiro quadro do pintor foi feito em 1907, e nem o atraso vivido na Itália no começo do século 20 impediu a obra de estreia de ser inovadora.
As cores eram chamativas, semelhantes às de Van Gogh, o quadro era muito impressionista conta o curador, também autor de um livro sobre o pintor. Ele sempre preferiu a plasticidade ao realismo.
Com obras similares ao fauvismo, Magnelli participou da 8ª Bienal de Veneza em 1909 e da Exposição Internacional da Cidade de Veneza em 1911. Sua aproximação com movimentos de vanguarda aconteceu no mesmo ano, com a realização de uma exposição futurista em Florença. Pouco depois o pintor tem acesso a um livro sobre pintores cubistas de Guillaume Apollinaire e começa a criar com influência do estilo.
Em 1914, vai para Paris na companhia do poeta Aldo Palazzeschi e pela primeira vez vê obras cubistas pessoalmente. Adquire uma série de trabalhos de artistas como Picasso, Juan Gris e Carrà e produz suas primeiras telas abstratas em 1915.
Três anos depois, pinta Explosions lyriques( explosões líricas ), série marcante em sua carreira, presente com três quadros na exposição:
As obras dessa série finalizam um período de sua arte, têm traços mais livres, sem linearidade, de forma semelhante a formas contemporâneas explica Abadie. O estilo lembra, por exemplo, a pop art de Jasper Johns. Mas essa corrente só viria a surgir na década de 60.
Na década de 20, Magnelli segue uma tendência da época e volta a utilizar formas figurativas. A destruição causada pela Primeira Guerra Mundial provocara a sensação geral de que as vanguardas tinham ido longe demais e criado dois polos opostos. Enquanto alguns se refugiavam no inconformismo dadaísta, outros voltavam para modelos mais convencionais. A posição do pintor, no entanto, continua particular. Ele retrata sobretudo a vida de camponeses e artesãos toscanos, paisagens de Florença e mulheres, ao mesmo tempo em que busca inspiração em formas de arte primitivas e populares.
Enquanto alguns contemporâneos como Carrà ou Soffici desejam um retorno ao Renascimento, Magnelli queria fazer invenções plásticas, usar cores compara Daniel Abadie.
Na mesma época, ele se afasta do futurismo devido à proximidade do movimento com o fascismo. A repulsa ao autoritarismo o leva a morar em Paris em 1931, e no mesmo ano volta às formas abstratas com a sériePierres eclatées ( pedras explodindo ). O artista permanece na capital francesa até o fim da Segunda Guerra Mundial. O fascismo o leva a rejeitar a Itália como pátria, decepção que carregou por toda a vida (em sua lápide, está escrito apenas Alberto Magnelli, pintor florentino ). Era uma época de tristeza e melancolia, o que, no entanto, não transparece em sua produção.
Ele achava que a arte não dizia respeito ao seu humor. A pintura deveria ter formas equilibradas, como uma estabilidade da mente em luta contra a desordem observa o curador.
Em 1947, a Galeria René Droun, em Paris, realiza uma exposição retrospectiva do pintor. Ele é apresentado como o último mestre histórico do abstracionismo, após a morte de todos os criadores do movimento. A crítica dá grande destaque à mostra e a nova geração de pintores abstratos, que incluía nomes como Victor Vasarely, Émile Deyrolle e Serge Poliakoff, o eleva ao posto de mestre.
Ajuda na criação do MAM-SP
No mesmo ano, o pintor se encontra com o empresário paulista Francisco Matarazzo em Davos, na Suíça. O contato havia sido feito por seu irmão, que havia morado no Brasil ao fugir do fascismo. O pintor contribui com opiniões decisivas para a criação do MAM-SP, tanto para a nomeação do primeiro diretor do museu, Léon Degand, quanto para a construção de seu acervo. No final da década de 40, tem obras expostas em diversos países, incluindo o Brasil. Em 1951, recebe o segundo prêmio da Bienal de São Paulo. Além disso, se torna amigo do poeta Murilo Mendes em Bruxelas e inicia uma estreita correspondência com o mesmo, posteriormente reunida num livro.
Nas duas últimas décadas de vida, Magnelli realiza exposições e ganha homenagens em diversos países. Ainda assim, a repercussão de sua obra é reduzida por sua recusa em ser visto como mestre da nova geração de pintores abstratos. Segundo o curador, talvez exista uma razão simples para tal desfeita:
Ele não gostava de fazer parte de nenhum grupo.
Serviço:
Alberto Magnelli
CCBB, Rua Primeiro de Março 66, Centro (3808 2020). 3ª a dom., das 10h às 21h. Grátis.
Abertura na terça-feira
