Primeira mostra de gravuras dos anos 60 de Cildo Meireles

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Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Há cinco anos sem uma exposição individual no Rio, o artista plástico Cildo Meireles volta apresentando uma faceta pouco conhecida de seu trabalho. A partir desta quinta-feira, o carioca mostra, no Museu da Chácara do Céu, em Santa Teresa, uma série de 20 gravuras linguagem que não é a sua praia , como define o próprio. Em sua maioria inéditas, as obras são realizadas a partir de seus desenhos e instalações anteriores, da década de 60 em diante, como a célebre Desvio para o vermelho, e têm tiragem limitada a 20 exemplares. A mostra é promovida pela Sociedade Amigos da Gravura, que a cada ano lança no mercado gravuras inéditas de nomes de destaque da arte brasileira, como Daniel Senise, Malu Fatorelli, Waltércio Caldas e Beatriz Milhazes, entre outros.

Sempre fiz gravuras de forma aleatória, não de maneira sistemática admite Meireles, 62 anos, que em 2008 ganhou uma grande mostra individual na Tate Modern, em Londres. Cheguei a fazer um curso no ateliê de gravura do MAM, mas nada muito além disso. Nunca tinha sequer feito cópia de alguns trabalhos. Por isso, achei oportuno mostrar todos estes trabalhos juntos.

É a primeira vez que o artista faz uma exposição individual de gravuras. Como é costume no projeto, que a cada ano traz sempre uma obra inédita de cada artista, Meireles apresenta um trabalho realizado especialmente para a mostra: uma serigrafia feita a partir de desenho de 1968, da série Superficies.

Gravuras não são os suportes mais populares que existem, o que é uma pena, já que foi criado para este fim explica Meireles.

O artista lembra que o suporte precisa hoje incorporar os efeitos dos novos tempos, que experimentam uma dissseminação absoluta da imagem. Como exemplo, cita o inglês Alex Tew, que, para pagar seus estudos, inventou uma homepage na qual vendia a U$ 1 cada um de seus 1 milhão de pixels. Não só vendeu todos e se tornou milionário, como acabou recebendo várias propostas de emprego.

Sutilezas tridimensionais

A gravura tem que ser cada vez mais ampla e abrangente para reencontrar seu lugar na história ressalta. E isso passa pela incorporação dos novos processos. Há cada vez mais imagem, mas acredito que a quantificação traz qualidade. Quanto mais coisas forem feitas, mais haverá oportunidade de surgir coisas interessantes.

Parte das gravuras são releituras de obras do artista dos anos 60 período no qual fazia experiências com espaços virtuais. Para Reila Gracie, curadora da mostra e editora da obra de Meireles há 15 anos, a natureza tridimensional destas obras tornam ainda mais difícil sua transposição para o formato.

É extremamente delicado transpor uma instalação para a serigrafia explica Reila. É preciso manter os trabalhos de sombra e transparência, todas as sutilezas, além de privilegiar a sensação de volume para dar o aspecto tridimensional. A gravura acaba criando uma síntese da instalação, traduzindo-a para o objeto gráfico.