Renata Sorrah volta aos palcos como Lady Macbeth

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Daniel Schenker, Jornal do Brasil

RIO - Atores como Sergio Britto, Cleyde Yáconis, Tereza Rachel, Maria Della Costa, Fernanda Montenegro, Nathalia Timberg e Ítalo Rossi, entre tantos outros, são conhecidos pelo repertório dramatúrgico que formaram no decorrer dos anos. Juízos de valor à parte, as gerações seguintes parecem estruturar menos suas carreiras sobre textos tão consistentes. Mas há exceções. Uma, certamente, é Renata Sorrah, que, ao longo do tempo, vem priorizando grandes peças.

Gosto de dramaturgia contemporânea, mas valorizo os textos eternos, aqueles que atravessam os séculos e fazem meu coração bater. Você lê um texto de Tchecov e tem a sensação de que ele sabia o que viria adiante. Shakespeare botou o humano no palco ressalta Renata.

É com a obra de Shakespeare que a atriz está envolvida nesse momento estreia, sexta-feira, uma nova versão de Macbeth, assinada por Aderbal Freire-Filho, no Teatro Tom Jobim, no Jardim Botânico. O personagem-título será interpretado por Daniel Dantas.

É um dos casais mais apaixonados de Shakespeare, que conta uma história de amor, de cumplicidade. Lady Macbeth diz que o coração de Macbeth é cheio do leite da bondade humana . Ela acha isto péssimo. Pede auxílio ao que há de pior no mundo para ajudá-la a não ter nenhum remorso ou dúvida desenvolve a atriz. Quando Macbeth passa a agir sozinho, Lady começa a se desintegrar. Ele parte numa viagem própria, ainda que sem deixar de amá-la. Ela se mata, ele se rasga em vida.

Renata não viu montagens anteriores de Macbeth. Em compensação, conferiu a maioria das versões cinematográficas da peça.

Vi todos os filmes, menos o do Polanski (Macbeth, de 1971). A Lady criada por Akira Kurosawa (em Trono manchado de sangue, de 1957) é fantástica. Conspira na imobilidade. É ainda pior que a de Shakespeare porque incita o assassinato de Banquo opina, referindo-se à versão de Kurosawa, que deslocou a ação para o Japão feudal e concebeu uma Lady Macbeth inspirada no Teatro Nô.

Renata nunca planejou fazer Lady Macbeth. Diz que não escolhe suas personagens a partir de objetivos calculados.

- As personagens surgem no meu caminho. Não pensei que falaria no palco sai, mancha maldita diz, em relação a uma das frases mais famosas da Lady. Mas é um grande prazer.

Medeia, de Eurípedes, também não estava nos seus planos, apesar de ter se arriscado, anos antes, em outra tragédia Antígona, de Sófocles, na versão de João das Neves, para o Grupo Opinião.

Medeia foi um espetáculo deslumbrante observa Renata, acerca da encenação dirigida por Bia Lessa e apresentada nos escombros do Teatro Dulcina, que teve parte das cadeiras retiradas para dar a sensação de espaço bombardeado. A alma de Medeia é bombardeada.

Renata também participou de montagens que lançaram autores pouco difundidos no Brasil, como Rainer W. Fassbinder, em Afinal, uma mulher de negócios, e Botho Strauss, em Grande e pequeno. A primeira foi uma produção do Teatro dos 4, em que a atriz arrancou gargalhadas da plateia ao interpretar a personagem que comete assassinatos com xícaras de café, envenenando aqueles que a oprimem.

A preparação do café era um código. O público ria à beça relembra Renata, que participou de outras montagens do Teatro dos 4, como Os veranistas, de Maximo Gorki, e As lágrimas amargas de Petra Von Kant, novamente de Fassbinder.

Grande e pequeno foi a primeira empreitada como produtora.

Meu pai, que hoje está com 95 anos, totalmente lúcido, é alemão e assistiu a Grande e pequeno no exterior. Ficou encantado. Falou para eu ver. Decidi montar. As pessoas disseram, na época, que o texto era muito alemão. Resolvi, então, partir para a produção.

No currículo de Renata Sorrah também figuram outros autores ilustres, como Tchecov, Slawomir Mrozek e Luigi Pirandello.

Queria fazer mais Pirandello. Se fosse remontar Encontrarse (1989), faria bem diferente. Não sei se era madura o suficiente para entender o texto. É uma peça linda, estranha, sobre uma mulher que não consegue viver fora do palco analisa.

Shirley Valentine, talvez seu trabalho mais despretensioso em teatro, deu um susto na atriz.

Chamei alguns amigos um pouco antes da estreia para assistir. Todo mundo riu. Não sabia que era tão divertido. Aquela foi a primeira vez que fiz comédia assinala.

A bem-sucedida carreira contou com parcerias determinantes, como as travadas com Amir Haddad e Sergio Britto.

Entrei no Tuca (Teatro Universitário Carioca) por acaso e lá estava o Amir. Imediatamente tranquei a matrícula em psicologia. Amir propiciou que eu passasse a me conhecer de maneira mais profunda. E me mostrou o mundo de uma maneira diferente lembra a atriz.

Sergio Britto a conduziu em trabalhos bastante elogiados.

Ele me dirigiu em espetáculos como Os veranistas e teve presença crucial em Afinal, uma mulher de negócios. A relação diretor-atriz é fundamental para mim. Agora, estou encantada com Aderbal elogia.

Também firmou elos inquebrantáveis com atores como Rodrigo Santiago, Selma Egrei, Xuxa Lopes, José Mayer e Juliana Carneiro da Cunha.

Eu e Juliana somos irmãs de escolha. Mantemos o frescor da amizade sempre que nos encontramos sublinha Renata.

Hoje, olhando para trás e prestes a encarar mais um desafio, Renata reafirma o seu vínculo com o teatro:

O teatro me resgata de momentos difíceis. Posso não acertar em certas peças, mas o trabalho me dá um norte na vida.