Obra póstuma de G. Cabrera Infante mantém maestria na linguagem
Alvaro Costa e Silva , Jornal do Brasil
RIO - Guillermo Cabrera Infante morreu em 2005 depois de viver 40 anos no exílio, banido pelo regime de Fidel Castro, sem nunca mais rever Havana. Três anos depois saiu na Espanha La ninfa inconstante, livro que estava terminado mas não pronto. A viúva, a atriz Miriam Gómez, juntou os pedaços de papel manuscritos e lhes deu formato final.
Entre os admiradores do escritor temia-se que, mais que póstumo, fosse uma obra prematura. Mas, no geral, as críticas foram excelentes. O oportunismo e a necromancia passaram longe: A ninfa inconstante nome tirado do filme A ninfa constante, de 1943, protagonizado por Charles Boyer e Joan Fontaine é um autêntico G. Cabrera Infante, com os habituais jogos de palavras e referências sobretudo à língua inglesa e ao escritor Jonathan Swift. Em nota introdutória, o cubano pede: Se encontras anglicismos, revisor de provas que não aprovas, não lhes toques: é assim a minha prosa .
O pequeno romance se passa em 1958 claro, na Havana pré-revolucionária. Narra as tramóias de Estela, jovem de 16 anos, e seu amante, um crítico de cinema da revista Carteles (ofício que Cabrera Infante de fato exerceu). Como numa fita noir estrelada por Barbara Stanwick, ela pede que ele mate uma pessoa. A mãe dela.
Parece Lolita, mas só parece. Apesar de gostar de Nabokov Cabrera deve ter sido o primeiro cubano a comprar o famoso livro, em 1955, numa livraria belga que existia na capital de Cuba. Na apresentação da obra, Mirim Gómez se apressou em esclarecer: Em Havana, uma menina de 16 anos já é uma mulher completa .
Além de Ninfa inconstante já traduzido em Portugal há outros livros póstumos na fila: Cuerpos divinos, seu livro mais autobiográfico, segundo a viúva; Mapa dibujado por un espía conta sua última viagem a Cuba antes do exílio, em 1965, para o enterro da mãe. Também está sendo preparada uma edição de suas obras completas, a cargo do agente literário Andrew Wylie, um dos mais influentes do mundo.
No Brasil, seu único livro ainda em catálogo, além da recente tradução de Três tristes tigres, é o ensaio Fumaça pura, uma mui particular história do tabaco e de suas relações com o cinema e a literatura. Estão esgotados e disputados nos sebos: Delito para dançar o cha-chá-chá, três versões do mesmo conto; Mea Cuba, reunião de textos que são um acerto de contas com o passado e os desencantos políticos do autor; Vista do amanhecer no trópico, vinhetas sobre a história cubana que sobraram da cirurgia realizada em Três tristes tigres; e Havana para um infante defunto, romance de formação que provavelmente é a melhor maneira de se entrar no universo do escritor, pois composto de uma série de episódios que podem ser lidos separadamente (um deles, A amazona , é considerado pelo escritor espanhol Javier Marias como uma das maiores narrativas do século passado. De lambuja, há um fellacio que merecia ganhar o Bad Sex Prize, que, ao contrário do que se possa pensar, são as melhores cenas de sexo: (...) y ella la recibió toda em su boca y sigió, lollipop, lamiéndola .
Falta traduzir muita coisa: o primeiro livro de relatos, Assim na paz como na guerra (na antologia Os melhores contos da América Latina, organizada por Flávio Moreira da Costa, pode-se ler um deles, Um ninho de pardais num todo ); os experimentais O e Exorcismo de esti(l)o (o título deste é uma homenagem a Raymond Queneau); El livro de las ciudades, que reúne relatos de viagem e impressões sobre Londres, cidade que escolheu para viver.
E falta traduzir, principalmente, seus livros sobre cinema: Um oficio del siglo XX, antologia de críticas assinadas por G. Cain, mais que um pseudônimo, um personagem de capa e espada; Arcádia todas as noites, coletânea de palestras sobre cineastas americanos; e os ensaios de Cine o sardina. No embalo, que tal editar seus roteiros? Entre outros, o do filme de culto Vanishing point (em português, Corrida contra o destino), de 1971, que será refeito pelos irmãos Ridley e Tony Scott; e Sob o vulcão, baseado no romance de Malcolm Lowry, infelizmente jamais filmado. Cabrera Infante fez de um lema de Manuel Puig (que, aliás, cita o filme Ninfa constante em seu primeiro romance, A traição de Rita Hayworth) o seu também: Delante de la pantalla, todo. Detrás de la pantalla, nada .
