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Uma vida dedicada às letras

Por

José Aparecido Miguel*, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - O livro Antonio Olinto, memórias póstumas de um imortal descortina com sua narrativa uma série de acontecimentos curiosos até aqui inéditos para o público que tocaram de perto a fantástica trajetória de vida do escritor, dentro e fora do Brasil. Quando o jornalista João Lins de Albuquerque, autor do livro, perguntou a Antonio Olinto qual o segredo de seu vigor às vésperas de chegar aos 90 anos, ele respondeu de pronto, sem pestanejar: É o entusiasmo diante da vida! . Antonio Olyntho Marques da Rocha, seu nome completo, que escrevia artigos no Jornal do Brasil, morreu em setembro, com a mesma idade.

É bobagem dizer que Olinto morreu. Ele encantou-se. E incansável como era, deve estar organizando no céu, mais uma de suas bibliotecas!

A frase, recolhida por João Lins de Albuquerque, é do acadêmico Ivan Junqueira, durante homenagem póstuma realizada na Academia Brasileira de Letras.

Nascido em Ubá, Minas Gerais, dia 10 de maio de 1919, Antonio Olinto encantou-se, então, no dia 12 de setembro de 2009, exatamente 12 anos depois de assumir sua cadeira na ABL, a de número 8, sucedendo Antonio Callado.

Pela primeira vez, Olinto abre seu coração para contar a Albuquerque inesquecíveis experiências vivenciadas ao lado de amigos e de figuras tão emblemáticas da cultura brasileira, africana e europeia, como Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Rachel de Queiroz, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Nelson Rodrigues, Augusto Frederico Schmidt, Leopold Senghor, Wole Soyinka, Bertrand Russell, William Faulkner e Graham Greene.

Sobre a arte de perdoar

A memória do acadêmico recorda também de outros atores igualmente imortais, muitos dos quais expressões incontestáveis da política e do poder no Brasil, como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Tancredo Neves, Café Filho, Jânio Quadros, Roberto Marinho, Samuel Wainer e Roberto Campos. Mas o livro Antonio Olinto, memórias póstumas de um imortal, evidentemente, vai além de uma simples maratona memorialística.

É um tributo a Olinto e a todos que os leitores que amam sua prosa e seu verso. Ele, em sua grandeza, nos revela ensinamentos sobre a arte de amar, de perdoar, e de escapar das ciladas da vida através do entusiasmo e da disponibilidade. É um livro sobre a possibilidade que cada um de nós temos de dizer sim à vida, num mundo onde cada vez mais impera o não e as dúvidas comenta Albuquerque, que lança a biografia nesta quinta-feira, na Academia Brasileira de Letras.

A obra traz um franco e amoroso diálogo, que nos permite conhecer flashes da rica e intensa vida de um dos nossos últimos literatos à moda antiga, escritor profícuo, jornalista cultural incansável, crítico literário, autor de dicionários, gramática, literatura infantil, ensaios, contos, romances, poesias e artista plástico naïf nas horas vagas.

É comovente, fascinante e rica a vida desse ex-seminarista do interior de Minas, depois um morador histórico de Copacabana, que foi durante 10 anos professor de latim, português, história da literatura, francês, inglês e história da civilização em colégios do Rio de Janeiro. E visitou mais de 50 cidades do mundo falando sobre cultura brasileira destaca o autor.

Na divulgação do livro, a Editora de Cultura ressalta que Antonio Olinto deixa uma obra vasta, incluindo a trilogia Alma da África, já inscrita na história da literatura brasileira, porque, como disse o crítico Wilson Martins em 1999, ele não fez o romance dos escravos que vieram para o Brasil, mas o dos seus descendentes, que, regressando aos territórios ancestrais, lá implantaram um prolongamento da civilização brasileira .

Essa contramão, que revelou um Brasil na África, mostra como uma tecnologia primitiva o furar poços das fazendas escravocratas de Minas Gerais, como Olinto narra em A casa da água quebrou o monopólio da água potável dos ingleses e estabeleceu uma elite em Lagos, Nigéria, com seus sobradões coloniais, seus nomes e sobrenomes portugueses, sua cultura peculiar.

Neste livro, sobressai a voz alegre e firme de Antonio Olinto, comemorando seus 90 anos de paixão pela vida e pelas letras, pela mulher amada a dramaturga e etnógrafa Zora Seljan e pelos amigos. O homem que, segundo o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony, é o mais abrangente escritor da nossa literatura .

Albuquerque escreve que Antonio Olinto era incansável, ao ponto de o acadêmico Paulo Coelho classificá-lo como um alquimista dos sonhos .

Se tivesse escolhido a música para manifestar sua alma, com toda certeza seria autor de peças maiores que as mais extensas sinfonias de Wagner avalia Coelho.

O escritor Arnaldo Niskier lembra que o homenageado não assistirá ao lançamento do livro que, inicialmente, se chamaria Antonio Olinto, 90 anos de paixão título mudado em razão de sua morte.

Mas, em espírito, estará ao nosso lado, repetindo no meu ouvido, baixinho, o que costumava dizer sempre: Não podemos abandonar a luta pela educação .

Nos últimos tempos dos 82 aos 90 anos à frente da Direção-Geral de Documentação e Informação Cultural, responsável pelas Bibliotecas Populares, pelo Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro e pelo Museu da Cidade, Olinto entregou 20 bibliotecas reformadas e inaugurou cinco em áreas carentes, com a alegria de quem atinava um poder mágico e instaurador dos livros , destaca o poeta Carlos Nejar.

Nem mesmo a idade avançada impediu Olinto de desfilar duas vezes durante o carnaval na Marquês de Sapucaí. Em 2007 saiu fantasiado com as cores da Mangueira, quando a escola de samba homenageou a Língua Portuguesa. Neste ano, saiu pela Mocidade Independente de Padre Miguel.

Foi uma das pessoas mais aplaudidas pelo público confessou o presidente da ABL, Cícero Sandroni, que desfilou com ele, no carro alegórico.

* Especial para o Jornal do Brasil