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Dá um close nele

Por

Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Num amplo salão localizado no sétimo andar de um prédio comercial em Botafogo instala-se o QG de beldades 40 Graus Models. Criada pelo booker Sérgio Mattos há oito anos, cada parede do escritório tem a mesma função de um book fotográfico. Fotos e mais fotos de meninos e meninas, ou babies, como ele prefere, são pregadas ou enfileiradas em prateleiras para decorar o ambiente. No centro do salão, uma grande mesa abriga quatro funcionários, que cuidam de cada detalhe das meteóricas carreiras daqueles que, estampados nas paredes, não param de vigiá-los. A cadeira reclinável de Mattos também fica ali. Sem divisão, baia ou qualquer outro entrave. Parece gostar da bagunça e do ritmo agitado de entra-e-sai que dá vida ao lugar. Dá uma olhada neste baby , pede a uma assistente, referindo-se a um menino que, acompanhado pelo pai, acaba de chegar de Caxias do Sul (RS) para uma avaliação. Você pode fazer a ficha dele e tirar uma polaroide? , pergunta a outro. Até que solta: Gente, é Bruno Gagliasso . O assistente não perde tempo: Você faz esporte? Fala que línguas? Já fez teatro? . O pai retruca: Já já vai ingressar .

Para Serginho, aquele menino, do sul do Brasil, é mais uma new face pronta para despontar. New faces e bastidores da moda, como o relatado acima, sempre reviram sua cabeça. Ou melhor, seus olhos atentos e escondidos por de trás de seus grandes óculos de grau. Dono de um olhar certeiro e faro apurado ( Sei quando tem o olhar bom, uma boca boa, um close, o formato do rosto e ainda projeto como vão ficar mais velhos , enumera), coleciona fora das paredes de seu escritório um verdadeiro arsenal de fotografias que captam o início de centenas de baby faces que, em coisa de meses , se tornaram top internacionais. A lista grande e potente agora compõe a exposição que Mattos apresenta no Copacabana Palace, quinta-feira, recheada de cenas e flagras registrados ao longo de 20 anos de carreira. Com a fluidez de um feirante a ofertar e exaltar as qualidades de seus produtos e a naturalidade de quem atua na linha de frente do metiê, ele desanda a citar nomes como Gisele Bündchen, Cauã Reymond, Isabeli Fontana, Ana Beatriz Barros, Paulo Zulu, João Vellutini, entre outros inúmeros, dos quais nem ele se lembra... Todo new face é o futuro top. Sou o cara que conheceu Alessandra Ambrósio com 11, Cauã com 17, Isabeli e Ana Beatriz com 13, Gisele com 14... O único mais velho foi o Zulu, com 28. Eu gosto do novo. E são essas descobertas que me motivam , conta.

Olha a Luciana Gimenez em 1991

Enquanto conversa e faz pose para a foto que ilustra a reportagem, Mattos se empolga em falar de seus muitos filhotes e comenta um punhado de antigas fotos espalhadas em sua mesa de vidro. Olha a Luciana Gimenez em 1991 , Essas meninas eram crianças! Hoje são todas grandes estrelas , Olha o Cauã e a Ana Beatriz Barros novinhos. Eu que descobri os dois , Cada foto é uma grande história... . Com a última frase impregnada na mente, disposição alerta e máquina sempre em punho, há duas décadas, ele passou a fotografar o cotidiano da moda. Lugares, cenas, rostos, flagras e tudo o mais que desperta a fantasia e a idealização de muitos. Comecei antes do digital e gastei muita grana com laboratório. Por necessidade do trabalho e do prazer. Visitava cidades do interior, fotografava e trazia para o Rio. Tenho malas de contatos e negativos. Era booker de papel e caneta na mão. Anotava tudo .

No fim dos anos 80, quando a Elite aportava no país, Mattos largou a gerência de uma filial paulista da Yes, Brazil e arremessou seu olhar pelo país, a bordo do concurso Look of the Year. E foi pelo evento que lhe serviu de entrada no mundo fashion que, em 1994, ele parou, surpreso, à frente de uma magrela de biquíni postada numa imensa fila de meninas.

Gisele Bündchen começou em segundo

Viajei por quase todas as capitais e quando cheguei a Porto Alegre uma fila dobrava o quarteirão. Estava um frio louco e as tadinhas todas de biquíni. Lembro como se fosse hoje daquela magrinha, que me despertou a atenção. A Cláudia Menezes ganhou e a Gisele ficou em segundo lugar. Mas dali fomos para o concurso internacional, em Ibiza. Ela ficou entre as 10, o Casablancas pirou e disse que ela seria a grande estrela brasileira. Tenho fotos de tudo isso .

Acesso aos bastidores, festas fechadas, eventos selecionados e encontros inusitados estão armazenados na memória em forma de orgulho. O homem que se hospedou na casa de Linda Evangelista, jantou com Calvin Klein e saiu para badalar com Mario Testino foi e ainda é booker de quase todas as maiores tops brasileiras. E, às vezes, sozinho em casa, revirando seus pertences, ele pega seu livrinho de books e se surpreende ao se deparar com memórias perdidas: Caramba, representei todas essas meninas... E elas se tornaram estrelas , diz, apontando para uma foto. Marcele Bittar, Gianni Albertoni... Quando estava com a Raica, sempre a acompanhava. Achei coisas do arco da velha .

Ele acredita que as fotos ajudam a desmitificar a aura de grandeza e luxúria que cerca o universo dos camarins. Do backstage, seus cliques retratam meninas dormindo, outras lendo, calçando botas, costurando um botão, o antes e depois da maquiagem e do cabelo. Isso é demais. Toda essa correria que as pessoas fantasiam e idealizam muito. Na verdade, é sempre um corre-corre. Gosto de captar esses momentos, os flagrantes .

Em meio ao alvoroço usual, Mattos só se aborrece com o histerismo de produtores e com alguns filhos ingratos que, à primeira proposta, logo lhe oferecem as costas. Olha, é um mundo cruel, onde há muita concorrência e assédio. Às vezes, é chato. Você pega a pessoa crua, ensina tudo a ela, coloca na TV e, na primeira proposta, ela dá um tchau. Já me acostumei, apesar de não ser legal , revela o booker que, há um ano, montou a Special Talents, dedicada à TV.

A reclamação é coisa menor no papo solto e na energia em que Mattos recorda suas andanças. E basta ser indagado sobre o que o faz continuar garimpando beldades que ele não deixa o repórter completar a frase. Antes de estourar, ninguém dá valor. Gosto de apostar e fazer a pessoa acreditar; de ver uma menina nova, desengonçada, insegura, que não sabia nem andar, arrasando na passarela, brilhando mais do que outra com 10 anos de carreira. Cláudia Liz, aos 15, deu banho em Sílvia Pfeiffer. Gisele era chamada de nariguda. Isso me inspira .