Exposição multimídia investiga a obra do diretor Ingmar Bergman

Por

Daniel Schenker*, Jornal do Brasil

SÃO PAULO - A filmografia de Ingmar Bergman (1918-2007) já foi devidamente esmiuçada em retrospectivas abrangentes e seu processo de trabalho, revelado em documentários como Bergman e a Ilha de Faro (2006), atração da 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo na verdade, uma compilação da trilogia Bergman e o cinema, Bergman e o teatro, Bergman e a Ilha de Faro (2004), da mesma Marie Nyreröd. No entanto, o cineasta sueco sobrevive como um enigma capaz de suscitar novas questões, como fica claro na instalação Ingmar Bergman: o homem que fazia perguntas difíceis, montada na Cinemateca Brasileira dentro da programação da Mostra SP.

Promovida pelo Swedish Institute e exposta em Los Angeles como parte de um tributo organizado pela Academia de Artes e Ciências de Hollywood, a instalação consiste numa estrutura em forma de árvore que carrega cinco telas suspensas nas quais são projetados, no formato de 32 pequenos capítulos, trechos de filmes de Ingmar Bergman e entrevistas também com atrizes como Ingrid Thulin (1926-2004) e outros diretores, como Woody Allen, que realizou três trabalhos diretamente influenciados por Bergman: Interiores (1978), Setembro (1987) e A outra (1988). O público se depara ainda com a voz do ator Erland Josephson em Depois do ensaio (1984), o making of de produções como Fanny & Alexander (1982) e Saraband (2003) e a leitura de um trecho de Lanterna mágica, autobiografia do cineasta que está sendo relançada pela editora Cosac & Naify. Ao redor da estrutura há grandes painéis estampados com paisagem marítima.

Não se fala muito sobre o humor contido na obra de Bergman, em especial no que se refere a alguns de seus melhores trabalhos realizados antes de 1960, como Uma lição de amor (1954) e Sorrisos de uma noite de amor (1955). Mesmo nos seus filmes sérios há algo quase irônico, que talvez desponte em decorrência da distância do tempo, ao assistirmos a essas obras em 2009 aposta Peter Mattsson, gerente de projetos do Swedish Institute, em visita a São Paulo para apresentar a Mostra Sueca, um dos principais recortes dessa 33ª edição.

De acordo com Mattsson, Bergman teria ajudado a criar uma visão austera em relação não só ao seu cinema como aos suecos.

Seus filmes transmitem uma imagem de seriedade, trazem a escuridão do Norte, o silêncio e os espaços vazios. Talvez exista verdade em tudo isto, mas pode ter sido criado por ele. De qualquer maneira, na esfera existencial, Bergman foi um gênio que disse bastante sobre o ser humano sublinha Mattson, que conheceu rapidamente Bergman, há alguns anos, no Swedish Institute.

A Mostra Sueca fornece a possibilidade de traçar uma conexão entre Bergman e o cinema contemporâneo do país. O próprio cineasta declarou sua admiração por filmes de Lukas Moodysson, um dos mais promissores diretores suecos, lembrado pela Mostra (e também na última edição do Festival do Rio) com Corações em conflito (2009), centrado no relacionamento entre o criador de um site (interpretado por Gael García Bernal) e uma cirurgiã (Michelle Williams).

Bergman influenciou cineastas suecos contemporâneos. Existe, em contrapartida, uma reação a ele e a (August) Strindberg por serem figuras tão dominantes na cultura local opina Mattson. Os mais jovens têm necessidade natural de marcar oposição. E conheço diretores na faixa dos 70 anos que criticam Bergman por ter priorizado uma existência burguesa em detrimento de um registro de problemas sociais que passaram a assolar a Suécia. Seja como for, ele é reverenciado como grande mestre.

Outros diretores também são lembrados, como Victor Sjöström (1879-1960), cujo A carroça fantasma (1921) constituiu influência importante sobre Bergman, a ponto de convidá-lo para protagonizar Morangos silvestres (1957); Arno Sucksdorff (1917-2001), diretor que se apaixonou pelo Brasil, chegando a se mudar para o Rio de Janeiro nos anos 60, onde fez filmes como My home is Copacabana (1965); Hasse Ekman (1915-2004), ator que trabalhou em Prisão (1949) e Sede de paixões (1949), ambos de Bergman; e Jan Troell, um dos cineastas suecos mais reconhecidos no exterior, a julgar pelo seu elogiado Os imigrantes (1971).

*Especial para o Jornal do Brasil.