Divas correm atrás da década perdida
Marco Antonio Barbosa, Jornal do Brasil
RIO - O panorama do r&b contemporâneo (e do pop mainstream como um todo) mudou radicalmente ao longo da década que se encerra em breve. Às vezes, é difícil para talentos estabelecidos em outras eras se adaptar a novas realidades. Ainda jovens mas já 100% veteranas, Mariah Carey e Whitney Houston já dominaram o campo. Em 2009, precisam de muito fôlego para recuperar o terreno perdido para estrelas mais hiperproduzidas (Beyoncé), mais agressivas (Missy Elliot), mais sensuais (Nelly Furtado) ou simplesmente mais cativantes (Rihanna). Tendo perdido quase toda a década metida com drogas e às voltas com o marido-problema Bobby Brown, Whitney não lançava um disco de estúdio desde 2002, até retornar no fim de agosto com I look to you. Mariah ainda conseguiu ter uma produção mais consistente, mas ainda assim o recente Memoirs of an imperfect angel vendeu bem menos na sua semana de lançamento que o disco anterior, E=MC². É o caso de perguntar se as antes imbatíveis divas ainda merecem espaço na superpopulada arena r&b.
Excesso de 'lentinhas'
Mariah Carey costumava causar, com razão, horror a quem detesta a escola American idol de malabarismos vocais (o caso dela é agravado por seus agudos supersônicos). Memoirs of an imperfect angel traz a cantora com a franga bem contida na maior parte do tempo. Mesmo tendo buscado apoio externo para criar a sonoridade do disco, o 12º de sua carreira, Mariah dá a impressão de ter apenas feito o dever de casa e pouco mais. Comandado basicamente pelo produtor The-Dream (um dos responsáveis pelo clássico contemporâneo Umbrella, de Rihanna), o disco não traz desafios aos habituados ao r&b polido da cantora. Às vezes, os timbres soam mesmo retrô, no mau sentido ou seja, ultrapassados e batidos, como em Angel cry e Languishing. Outro agravante, é o excesso de faixas lentas, culminando na cover da (ba)balada I want to know what love is, sucesso do grupo Foreigner a qual também sofre com a produção mixuruca e os trinados descontrolados de Mariah. Dito isso tudo, ainda existem coisas dignas no disco. Entre a profusão de slow jams da nova safra, Ribbon é a melhor, encontrando na macia It's a wrap um bom complemento.
Retrô para valer
A abertura do disco de Whitney convence ou engana? muito mais. Em Million dollar bill, a moça engata um groove disco-funk totalmente anos 70. Há também um tom saudosista nos teclados de For the lovers e na desafiadora Nothin' but love. Funciona. Pena que o resto do álbum não siga o padrão, pendendo para um r&b eletrônico mais convencional. O mestre absoluto do estilo na atualidade, R.Kelly, contribui com duas faixas (a canção-título, um baladão, e Salute, mais uma slow jam) que acabam meio perdidas entre outras mais genéricas como Worth it. A song for you, standard de Leon Russell, é recriada direitinho, com classe e drama (até entrar a parte eletrônica do arranjo, pelo menos), dando espaço para o privilegiado gogó de Whitney se esparramar bem.
