Rainha[(s)]: Como se reiventa um clássico
Macksen Luiz, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - Cibele Forjaz não quis simplesmente (a palavra não se reveste de qualquer ironia, já que se está falando de encenar Maria Stuart, do alemão Friedrich Schiller) levar ao palco a tragédia segundo parâmetros teatrais que seguissem cânones tradicionais. A ideia é de construir, a partir de situações dramáticas retiradas do texto de Schiller, estrutura narrativa que incorporasse elementos que pudessem jogar luz, contemporânea, autoral, difusamente teatral, sobre o sombrio embate de mulheres que espremem os seus corações.
Nesta dramaturgia cênica, em cartaz no Espaço Sesc, em Copacabana, a plateia recebe as duas atrizes se preparando para interpretar as rainhas Maria e Elizabeth, que chegam já duelando sobre atrasos, cabelos, grampos, estatura, e que logo expõem, de maneira bem coloquial, a trama da tragédia. O que acontecerá, as razões do enfrentamento das primas, tudo se reduz a uma conversa de camarim, por que o importante está na forma como se confundem os desejos de duas mulheres-atrizes em projetar mulheres-rainhas, seguindo as suas próprias vivências.
O subtítulo é bastante esclarecedor sobre o espírito da montagem. É o coração o móvel das atitudes de quem está em cena, sejam as atrizes, sejam as personagens. A mandala-labirinto que demarca a arena, e para onde tudo converge, é o centro de pulsação desses corações cheios de sangue vigoroso que impulsiona vidas. Não se trata de mero paralelismo, mas de encontrar no ritual do teatro, via a dramática de Schiller, correspondência na expressão de vontades e sentimentos. Se, às vezes, possa parecer um tanto ingênuo tais arrebatamentos, a impressão se desfaz pela habilidosa e inteligente arquitetura como diretora e atrizes, a cada novo instante, se apropriam do enfrentamento, quase lúdico, de razão e sentimento. E o humor também se equilibra nesta bem urdida máquina de reinventar um clássico, com comentários autocríticos sobre o tipo de opinião, sobre esse desrespeito ao tradicional, e na revelação das entranhas da cena.
Os truques se revelam, o sangue cenográfico é preparado à frente da plateia, a contrarregra entra e sai de cena sem qualquer disfarce, os figurinos são parcialmente vestidos, e os objetos (cabides, perucas) ganham a relevância de coroas ou se desfazem em gestos dramáticos. Ao público é lembrado, a todo momento, que se está e que se faz teatro, e lhe é proposto desvendar parte das regras deste jogo de aparências, para o qual é convidado até mesmo para uma votação. Quem deve morrer? Maria ou Elizabeth?
O resultado, que nem sempre segue a verdade histórica, precisa ser arranjado pelas atrizes para que seja reposta a exatidão do texto e se conclua a narrativa. Mas o que se evidencia, é que o espetáculo conduz o público a escolher entre as duas, segundo a sua adesão ao que assiste, já que estabelece com a sua autonomia expressiva, possibilidades de intervenção no original.
Cibele Forjaz, como a orquestradora desta sinfonia de batimentos do coração, cria montagem emocionalmente provocativa e racionalmente sentimental. Até mesmo as excessivas referências que a diretora inclui em suas montagens, como em algumas outras anteriores, em Rainhas (S) também estão presentes, mas se fazem bem mais teatrais pela maneira como se integram, com mais solidez, ao estilo definido da encenadora.
O encontro de Cibele Forjaz com as atrizes Isabel Teixeira e Georgette Fadel é determinante para o desenho borrado e os traços arrojados deste voo em torno de Maria Stuart, no qual a essência da disputa se derrama sobre atrizes e plateia que ficam frontalmente diante do rompimento da convenção, instigadas a mergulhar, com despudor, ao fundo do coração. Isabel e Georgette são, ao mesmo tempo, peças e manipuladoras neste tabuleiro-labiríntico, vozes próprias que se misturam às de Schiller para criar dissonância integradora, revigorando a extensão das suas interpretações e atualizando a força poética de narrativa clássica.
