Christina Oiticica deixa que meio ambiente interfira nas suas pinturas

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Rodrigo Accioly *, Jornal do Brasil

RIO - Em 1986, o escritor Paulo Coelho percorreu a pé os quase 800 quilômetros que separam a cidade francesa de Saint Jean Pied d'Port da galega Santiago de Compostela, na Espanha. Tamanha foi a importância da viagem que o Caminho de Santiago foi tema de seu primeiro livro, Diário de um mago. Algo semelhante aconteceu com sua esposa, a arquiteta e artista plástica Christina Oiticica que, em 1990, caminhou pela consagrada trilha e, após completar a peregrinação, decidiu dedicar-se exclusivamente à arte.

A mudança do casal para a França, mais especificamente para um hotel nos Montes Pirineus, no início da década atual, foi um marco importante. A artista foi pintar do lado de fora. Como as telas eram grandes e a tinta úmida impedia que fossem enroladas, deixou-as pernoitar ao relento. Quando foi buscá-las observou que folhas, sementes e insetos caíram sobre as pinturas, aderindo à tinta. Christina percebeu que a natureza interferira em sua obra. Foi um insight que mudou os rumos de sua carreira.

Foi então que a artista desenvolveu sua técnica única, com a qual vem trabalhando desde então, de enterrar suas pinturas na terra e fazer da natureza sua parceira. Planta seus quadros para acompanhar a germinação de obras alteradas pela ação direta do ambiente. Através de coordenadas geográficas, após alguns meses, as obras são retiradas e com cuidado, emolduradas.

Durante o período de um ano, entre 2002 e 2003, Christina Oiticica deixou 57 trabalhos em diferentes tipos de solo leitos de rios, pedras, terra, florestas. Desta maneira, permitiu que a natureza, ao longo das quatro estações, pudesse interferir diretamente em suas pinturas. Todas as telas com exceção de uma foram recuperadas, tratadas com um processo especial para evitar que se deteriorassem, e o projeto foi mostrado pela primeira vez em Lublijana (Eslovênia) em 2003. A série Quatro estações, foi posteriormente exibida no Brasil em 2004, na Casa França-Brasil.

A pesquisa se radicalizou. Desde então, tem enterrado obras pelo mundo. Já esteve na Amazônia, no Chile, no Japão, na Índia e nos Alpes Suíços, além de ter percorrido o Caminho de Santiago.

De volta aos Pirineus, em 2006, Christina Oiticica iniciou um projeto ambicioso, o de percorrer o Caminho Peregrino de Santiago de Compostela, enterrando 100 obras ao longo das principais paradas. Foi uma volta ao caminho que percorrera 16 anos antes, uma ambição artística que levou dois anos para estar concluída. O resultado deste trabalho foi uma grande exposição de 59 telas, em maio de 2009, na Igreja da Universidade de Santiago de Compostela, que depois também esteve em Madri.

Christina desenvolveu um trabalho no Japão, ao longo do Caminho de Kumano, sagrado para os taoístas e budistas (como o Caminho de Santiago é para os cristãos). Como é costume entre os monges das montanhas enterrar objetos sagrados, o trabalho foi recebido com naturalidade e respeito. O Caminho de Kumano e o de Santiago são considerados irmãos , semelhantes entre si.

* Especial para o Jornal do Brasil