Atrás do sucesso, mas longe da 'Malhação'
Ricardo Schott, Jornal do Brasil
RIO - Com quatro discos no currículo e uma mão para hits que já deu caldo Quando o sol se for, Outro lugar e O dia que não terminou, sucessos lançados entre 2002 e 2004, ainda frequentam os dials a banda carioca Detonautas Roque Clube chega a seu Acústico com a missão de voltar aos sucessos e unir fãs das duas diferentes fases da banda. O grupo começou ligado a uma proposta de rock juvenil, calcada no que tocava no rádio no começo da década, e tornou-se mais roqueira em Psicodeliaamorsexo&distorção (2006); e um tanto mais baladeira, cheia de canções para se tocar no violão, em O retorno de Saturno (2008) ambos discos com prestígio de crítica e pouca popularidade. O vocalista Tico Santa Cruz e o guitarrista Renato Rocha admitem que miram a volta ao rádio ao adotar violões e baixolões.
Às vezes, a pedido de alguma rádio, já fazíamos versões acústicas. Isso aconteceu com Outro lugar. O formato é mais acessível afirma o vocalista, que, mesmo orgulhoso dos hits antigos (que revisita em Acústico), tem lá seus distanciamentos críticos. Escapamos daquela coisa meio Charlie Brown Jr. meio O Rappa que tínhamos, e que era nossa referência. Gostamos das duas bandas e foi nossa maneira de entrar no mercado. Mas ficamos atrelados a uma roupagem Malhação.
A relação com o rádio tem outro lado mais árido para Tico, Rocha, Cléston (picapes e percussão), Fábio Brasil (bateria) e Tchello (baixo).
Ficamos de fora de uma grande estação porque o dono da rede se incomodou com algumas opiniões nossas afirma o cantor, que liberou em seu blog antes do prazo (e sem a autorização da gravadora) o single inédito O inferno são os outros. Como atrasou o lançamento, resolvi colocar a música no Blip FM. Foi uma atitude irresponsável da minha parte, claro, mas conversei com a gravadora e expliquei que isso também era saber jogar o jogo. Não dá para desperdiçar a web.
Acústico (lançado sem a chancela de canais como MTV e Multishow) traz poucas canções de O retorno de Saturno, último CD. Rocha diz que, justamente devido a opção pelo acústico, optaram por remexer no material gravado originalmente com mais peso assim, canções de Psicodeliaamorsexo&distorção unem-se aos juvenis hits do começo da década. Completando o repertório autoral, as inéditas O inferno são os outros e Só nós 2.
Ficaria redundante. Resolvemos refazer músicas antigas, mantendo a mesma pegada mas com um pano de fundo diferente, armando alguns vocais explica o músico, frustrado com a pouca atenção dada ao terceiro disco, atropelado pelo assassinato do guitarrista Rodrigo Netto, num assalto no dia 4 de junho de 2006. Ficamos sem chão, foi complexo lidar com aquela situação. Tivemos 90% de aceitação da crítica, mas passou em branco, foi um álbum abortado.
Apesar de se desplugarem, os músicos aproveitam o Acústico para voltar a ser um sexteto, com mais um guitarrista antes, Rocha dividia as funções com Rodrigo Netto. Ex-roadie de Netto e guitarrista convidado em vários shows, Philippe assume definitivamente as seis cordas ao lado de Rocha e aparece até na capa do disco além de contribuir com sua assinatura nas duas inéditas.
Mas ele não entrou para ocupar o espaço do Netto. Até porque têm sons diferentes afirma Rocha. O Phillipe é mais rock'n'roll. O Netto tinha uma formação de violão clássico, fazia umas harmonias bem originais.
De letras que tinham frases pueris como cara sinistro da Zona Sul/andando com um monte de vadia para lá e para cá (de Outro lugar), o grupo foi buscando evoluir, a seu modo, para composições como as de Verdades do mundo (que está no DVD) e a romântica Tudo que eu falei dormindo (que, no vídeo, é colocada como homenagem ao guitarrista morto). E tentam uma proximidade com o idealismo do rock dos anos 80 do qual resgatam as músicas Mais uma vez (parceria de Renato Russo e Flavio Venturini) e Até quando esperar (da Plebe Rude).
A gente é cria dessa época. O André X (baixista da Plebe) chegou a assistir às gravações do nosso primeiro disco, levado pelo Fernando Magalhães (guitarrista do Barão Vermelho e produtor da banda). Deu até uns toques recorda Rocha.
Cléston, por sua vez, preparou-se para o acústico tendo aulas de percussão com o baterista do Barão, Guto Goffi.
É o disco da banda que tem mais percussão, até porque não daria para ficar usando scratches o tempo todo. Só não deu para ficar usando batuque. Não é a nossa.
Já Tico se diz adorador de nomes como Cazuza, Raul Seixas e Renato Russo.
É minha tríade afirma o vocalista, que, mantendo a faceta ativista, além de fazer leituras de poesias (também presentes no DVD com as participações de Igor Cotrim e Betina Kopp) apresenta-se com o grupo Voluntários da Pátria, com o qual faz shows e atos públicos. Também uso o Twitter como arma. Conheci o site quando vi que tinham feito um perfil falso meu lá. Acho que ele é a tal Sociedade alternativa que Raul e Paulo Coelho falavam, porque tudo que você joga lá tem uma audiência imensa.
