Texto de Roberto Alvim se apoia na linguagem pop e critica a sociedade
Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil
RIO - Existem ideais na juventude contemporânea? Não há uma resposta fácil. Se valendo de referências pop para desferir uma crítica mordaz à sociedade guiada pela cultura de massas, o diretor Ivan Sugahara apresenta Às vezes é preciso um punhal para atravessar o caminho, em que os atores trazem para o Espaço Sérgio Porto os dilemas da sua própria geração. Encenada anteriormente na Europa, a montagem, com texto do dramaturgo Roberto Alvim, retrata os conflitos existenciais de um grupo de jovens brasileiros envolvidos em discussões sobre política e ética. E expõe, de forma irônica e metafórica, a falta de crença e a fragilidade ideológica da atualidade.
O texto foi escrito no momento em que a esquerda chegou ao poder, no Brasil, com a posse do Lula. E aí, me ocorreu a questão de como se comportaria essa nova esquerda dentro de um governo como esse explica o dramaturgo. Os atentados de 11 de Setembro ainda eram muito poderosos no nosso imaginário. E pensei na criação de uma célula terrorista surgida na classe média carioca, que fizesse oposição ao governo, mas sem nenhuma base política. Algo totalmente distinto das células revolucionárias dos anos de luta armada no país. É reflexo de um sintoma pós-moderno, porque trata de um grupo que se volta contra o vazio da cultura da sociedade de consumo, mas que se veste como personagens da Disney. Eles representam o próprio inimigo que atacam. Uma série de contradições que, como o panorama político brasileiro e mundial não se alteraram, permanece atual.
Após assistir a uma curta temporada na sala Paraíso, espaço off do teatro Carlos Gomes, em 2003, Ivan Sugahara obstinou-se com a ideia de ter a turma do Mickey Mouse em suas mãos. Teve que aguardar, porém, as peripécias do rato em andanças pela Europa. Em 2004, o texto foi traduzido para o francês e encenado na França, no Festival Internacional de Dramaturgia de Pont-à-Mousson, com direção de Michel Didym, sendo posteriormente publicado, em 2005, na mais importante coleção de dramaturgia contemporânea europeia, a Les Solitaires Intempestifs editada por François Berreur. Em 2007, uma nova encenação, desta vez na Suíça, carregou Mickey numa turnê pelas cidades de Monthey, Sion, Martigny e Laussanne, com direção de François Marin.
Gostei muito do texto e decidi que iria montá-lo. A peça foi muito pouco vista e merece destaque à altura diz Sugahara. Somos amigos há um bom tempo, já trabalhamos em eventos sobre dramaturgia contemporânea, mas nunca havíamos encenado uma peça. Surgiu a oportunidade numa ótima hora. É preciso lutar pelo que se acredita. Pegar no punhal metaforicamente. O texto é atual.
Roberto complementa:
Uma coisa foi levando a outra. A peça foi para a Europa a partir de um francês, que veio ao Brasil atrás de novas dramaturgias. Ao ser montada lá, chamou a atenção de um editor, que a publicou. Ao ler o texto impresso, um diretor suíço se interessou em montá-la. Esse processo me fez observar as diferentes leituras que um texto possibilita. A reverberação da obra é muito distinta. Um fragmento como Viva o 11 de Setembro! gera uma gargalhada enorme aqui. Enquanto lá, o público responde com um silêncio arrebatador. O que é visto como risível e cômico ganha dimensão violenta na Europa.
Além de uma reflexão sobre o culto à celebridade, o texto abre uma aresta para o contraponto entre a juventude de hoje e os ideais revolucionários da geração de 1968. Sem endeusar o marco histórico, o diretor destaca que as ideologias do período abarcavam um posicionamento diante dos problemas sociais no mundo.
Vejo uma geração menos sonhadora e lutadora. Recoberta por certa apatia. O texto é provocativo nesse sentido analisa Sugahara.
Encenada pelo grupo de jovens atores Laranja Eletrônica, a brincadeira supõe a existência de um grupo de universitários terroristas fantasiados de personagens de Walt Disney. São integrantes da Célula Revolucionária Clube do Mickey, que, já no título, denuncia sua faceta paradoxal, visto que Mickey Mouse é símbolo indissociável da cultura de massas, do entretenimento e do capitalismo. Com o objetivo de semear o pânico, o grupo elabora um plano para abalar definitivamente a superestrutura que domina o universo da fama: o assassinato de 10 celebridades do show business. Uma estratégia que se mostra equivocada.
Há uma insatisfação explícita. E outra que é o de não saber o que fazer com ela. Se você é contra tudo, acaba não sendo a favor de nada, não propõe teoriza o diretor. É importante que haja reflexão para agir e tentar resolver algo que está errado. Senão, a insatisfação fica à deriva. É preciso que ela seja descoberta por um pensamento. E que esse se desdobre numa ação eficaz. Não falo aqui em mudar o mundo. Mas tentar fazer alguma diferença. As pessoas deixaram de acreditar. É preciso discutir essa questão.
O diretor não se coloca de fora do contexto posto à berlinda, num cenário que apoia na arte do grafite estêncil, misturando ícones da cultura pop com imagens típicas de movimentos revolucionários.
Brincamos, parodiamos e criticamos essas referências pop. O meu olhar é de alguém de dentro, que faz parte dessa geração desgovernada e que tenta achar para si um caminho.
