Coleção recupera títulos mais expressivos da obra de Murilo Salles

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Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

RIO - Suas contribuições para o cinema brasileiro são esporádicas mas, quando concretizadas, dificilmente passam desapercebidas. Um dos mais argutos observadores do caos urbano brasileiro, o cineasta Murilo Salles acaba de ter grande parte de sua obra (como diretor) lançada pela primeira vez em DVD, com a chancela do selo Coleção Cineastas, da distribuidora RioFilme. Além de uma vitória dentro do combalido mercado nacional, a iniciativa permite que as novas gerações que se viram espelhadas em Nome próprio (2007), o mais recente título do pacote de quatro longas-metragens uma espécie de crônica do amor nos tempos da internet entrem em contato com compartimentos da realidade brasileira das últimas três décadas.

Vestígios dos estragos emocionais deixados pela ditadura militar (1964-1985), por exemplo, surgem pelas frestas de Nunca fomos tão felizes (1984), drama que marcou a estreia do até então diretor de fotografia na direção. Inspirada no conto Alguma coisa urgentemente, de João Gilberto Noll, a história desenvolvida por Salles, Alcione Araújo e Jorge Durán descreve a relação de um pai (Claúdio Marzo) recém-saído da cadeia, com o filho (Roberto Bataglin), educado num colégio de padres, que passam a conviver num apartamento da Avenida Atlântica. O pai alega questões de segurança para não revelar sua atividade clandestina.

Durante as longas ausências do pai, o jovem permanece no apartamento quase sem mobília, como que hipnotizado pela televisão. O título do filme é tirado de um slogan difundido pela Globo na década de 70. Produzido com apoio da extinta Embrafilme, Nunca fomos tão felizes foi visto por 270 mil espectadores. O filme venceu os festivais de Brasília (júri oficial e popular) e de Gramado (júri popular) daquele ano. O DVD ganha edição comemorativa dos 25 anos, com nova telecinagem.

Virar diretor foi uma decisão radical e hoje vejo quão importante e corajosa, porque era muito celebrado como fotógrafo, apesar de não exercer mais 'profissionalmente' a função. Alguns amigos acharam um absurdo à época lembra Salles, responsável pelas fotografias de filmes como Tati, a garota (1973), Dona Flor e seus dois maridos (1976), ambos de Bruno Barreto, e Eu te amo (1981), de Arnaldo Jabor.

Cinco anos mais tarde, Salles lança Faca de dois gumes (1989), mirando num gênero de pouca tradição no Brasil: o policial. Baseado no romance homônimo de Fernando Sabino, escrito por Leopoldo Serran (1942-2008), conta a trajetória de um advogado famoso (Paulo José), de família tradicional, que descobre que a mulher (Marieta Severo) o trai com seu sócio e melhor amigo. Cego pela ideia de vingança, o protagonista envolve-se numa série de desdobramentos inesperados e perigosos. Vencedor dos Kikitos de Melhor Direção e Fotografia (José Tadeu Ribeiro), entre outros, do Festival de Gramado, Faca de dois gumes foi conferido por 490 mil brasileiros.

O Sabino ficou muito contente com o filme. Ele era um homem inteligente e calejado com o cinema, até porque era produtor, e dirigiu alguns curtas-metragens também. Ele sabia como se passa essa transcodificação cinema/literatura, e acho que o Faca é um excelente exemplo disso entende o diretor. Hoje, com essa sociedade da valorização narcísica sem limites, na qual autores, depois de venderem seus direitos e usufruir do dinheiro recebido, vêm a público para vociferar que sua obra foi transgredida... Então, por que venderam?

Em meados dos anos 90, Salles lança Como nascem os anjos (1996), uma das primeiras produções nacionais a se alimentar dos conflitos entre a favela e o asfalto. A trama tem início quando Maguila (André Mattos), um traficante bronco, mata por acidente o chefão do tráfico em um morro do Rio e, na fuga, leva Branquinha (Priscila Assum) e Japa (Silvio Guindane), garotos da área. O grupo entra na mansão de um empresário americano e uma série de mal-entendidos transforma um favor em um sequestro acidental. Visto por 132 mil espectadores, o filme venceu seis categorias de Gramado, incluindo as de Direção e o Prêmio da Crítica. Mas não foi uma unanimidade, como recorda o diretor:

À época, o que incomodou bastante a crítica de esquerda é que ouso tocar num ponto nevrálgico da questão social brasileira: a desigualdade, a cidade partida. Mas porque estava fazendo isso pela ótica das crianças, resolvo fazer com um viés que começa como uma grande brincadeira e termina como uma anunciação trágica. Essa deliberação de ousar brincar com um tema tão sério não foi bem assimilado por uma crítica mais tacanha, mais literal, mais rotuladora, enfim menos sensível.

Ficaram de fora da coleção os documentários És tu Brasil (2003), sobre o processo criativo de talentos brasileiros (Carlinhos Brown, Alexandre Herchcovitch, Tunga, Débora Colker), e Todos os corações do mundo (1995), sobre os bastidores da Copa do Mundo de 1994. Seja o que Deus quiser (2002), outro mergulho na chamada Cidade Partida, protagonizado por um VJ de São Paulo, já foi lançado em DVD.

Todos meus filmes de ficção estão disponíveis agora em DVD, e isso é uma honra e uma felicidade admite o diretor.