Thereza Christina Rocque traduz sonetos de Shakespeare
Jornal do Brasil
PEDRO LYRA - Na virada do ano 2000, muitas listas elegeram 'os 10 (ou os 100) mais', em diversos setores da cultura. Uma delas, elaborada na Itália, elegia as 10 maiores personalidades não apenas do ano, nem mesmo do século, mas do segundo milênio. O primeiro lugar não foi de um político, de um cientista, de um inventor, de um filósofo foi de um poeta: o inglês William Shakespeare (1564-1616).
Universalmente reconhecido pela maioria da crítica como o maior poeta de todos os tempos, ele se impôs pelo gênero que não ocupa senão o terceiro plano na preferência dos poetas: o dramático, sobretudo pelo trágico. O apelo mais alto sempre foi o do épico: um Homero, um Virgílio, um Dante, um Camões, um Tasso, um Milton, um Hugo. Um degrau abaixo, o do lírico: um Ovídio, um Khayyam, um Petrarca, um Musset.
Fusão de gêneros
Fundindo os gêneros, a modernidade praticamente acabou com essa tipicidade: os maiores poetas modernos não se restringem a nenhum dos três tradicionais. Se o poeta moderno, tendo em vista a predominância da poesia social, puder ser identificado com um estilo qualquer, será o satírico, entendendo a sátira não como expressão do cômico, mas do crítico como num Baudelaire, num Brecht, num Maiakovski, num Neruda, num Drummond.
O teatro pós-renascentista empreendeu a primeira ruptura do modelo grego as rígidas regras das três unidades: de tempo, que não podia ultrapassar um dia; de espaço que não podia deslocar a cena; de ação que não podia desviar-se do tema central. O drama de Shakespeare ignorou normas e fundiu gêneros. Encarando o teatro como profissão, não se seduziu pela epopeia. Mesmo assim, há várias cenas épicas em suas tragédias. A sua outra opção foi a lírica e na forma preferencial do soneto.
O modelo consagrado por Petrarca (século 14) já havia sido modificado por poetas ingleses anteriores, mas foi ele quem consagrou o soneto britânico, no esquema 4-4-4-2. Este diverge do latino, e não pela simples diferença de estrofação, mas de enunciação: no modelo petrarquiano, os quartetos expõem o tema, o primeiro terceto extrai uma diretriz nuclear e o segundo arremata o pensamento, condensado na chave-de-ouro do último verso, como recomendava Boileau no século 18. No modelo inglês, o tema é exposto em três quartetos e concluído num dístico, portanto sem a extração do primeiro terceto italiano.
Shakespeare escreveu 154 sonetos e é este conjunto que a poeta e editora Thereza Christina Rocque da Motta oferece ao leitor brasileiro, numa bem cuidada edição bilíngue. Ela não ousou uma versão metrificada e rimada: sua tradução é literal. Se perde no que seria a poeticidade da sua expressão, ganha na fidelidade ao texto original.
Os sonetos foram publicados pela primeira vez em 1609 (e a tradutora explicita na capa que se trata de uma homenagem no seu quarto centenário) por um impressor assinado na sibilina dedicatória do volume apenas pelas iniciais T.T., que os dedica a alguém nomeado como W.H. e considerado como o 'inspirador' dos sonetos, que falam sempre de amor focalizando um 'belo jovem' e uma 'dama negra'.
São eles a parte mais polêmica da vasta obra do bardo. Em síntese, dois problemas básicos: a identificação dos protagonistas e a natureza dos sonetos. Hoje, acredita-se que T.T. seja o editor Thomas Torpe; que W.H. seja Willliam Hughes, jovem ator considerado tão bonito que interpretava também papéis femininos; e que a 'dama negra' seja apenas uma figura poética. Quanto à natureza dos sonetos: se são autobiográficos ou imaginários. Fácil e bem mais correto concluir pela fusão das duas hipóteses. Afinal, para um poeta puramente lírico, pode não ser tão simples falar pelo outro; mas para um poeta genialmente dramático...
Os dois problemas podem interessar para o conhecimento da vida do autor, mas não têm a menor importância para a avaliação dos sonetos. E alguns deles (como os de número 15, 18, 19, 105, 116) são dos mais belos e profundos já escritos. O motivo maior da polêmica é que os sonetos abrem com um bloco em que o poeta se dirige a um jovem, exaltando sua beleza e exortando-o à reprodução, para a continuidade de seus atributos. No mais, sonetos que exploram a temática do amor como em qualquer época.
Thereza captou bem o sentido destes grandes sonetos. O único tópico problemático consiste numa peculiaridade da língua inglesa: a inflexão de gênero principalmente nos adjetivos, mas no caso também no sujeito de segunda pessoa (o you ou o arcaico thou) que se podem aplicar indistintamente ao homem e à mulher. Apenas pelo contexto pode-se deduzir se o poeta se dirige ao belo jovem ou à dama negra. Ela teve que optar. Só nos seis primeiros sonetos, o poeta se dirige a uma mulher: no 2 ('Quando fores mais velha...'), no 4 ('Por que gastas contigo mesma...') e no 6 ('És por demais bela...'), mas me parece que em todos eles o poeta se dirige ao jovem e continua se dirigindo a ele em muitos dos seguintes, sempre com aquele propósito da procriação.
Além do amor, os outros grandes temas são o tempo, a morte e a arte, conjunto que fornece ao poeta o magistral esboço de uma autêntica poética, que se pode resumir nesta proposição: o tempo supera o amor, mas a arte supera a morte. Ele explicita essa ideia em vários sonetos, como no remate do 18: 'So long as man can breathe, or eyes can see,/ so long lives this, and this gives live to tee'. Que Thereza traduz assim: 'Enquanto a humanidade puder respirar e ver,/ viverá meu canto, e ele te fará viver'.
