Cia. Os Satyros traz trilogia baseada na obra do Marquês de Sade

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Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO - Uma injeção de ânimo marcou, no início dos anos 2000, o movimento de dramaturgos, diretores e atores que revitalizaram a Praça Roosevelt catapultada hoje ao posto de principal polo teatral da capital paulista. Responsáveis pela empreitada, a companhia Os Satyros, fundada há 20 anos pelos diretores Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, agora se instala no Rio e transforma, durante os fins de semana de julho, o Espaço Cultural Sérgio Porto em sua sede carioca. O projeto afina a relação entre a casa do Humaitá, voltada desde sua criação, na década de 80, para a experimentação artística, e o ousado grupo paulista, que traz aos palcos, a partir de sexta-feira, a polêmica Trilogia Libertina. Nela, Os Satyros reúnem três textos cunhados por Marquês de Sade (1740-1814), que escandalizou a sociedade da época ao abordar as perversidades e libertinagens presentes nas altas camadas sociais: A filosofia na alcova, 120 dias de Sodoma e Justine.

Ninguém lê ou assiste Sade impunemente. Queremos travar um diálogo com o público, através de textos de impacto diz Vázquez. Recebemos um convite de dois produtores cariocas que conseguiram milagrosamente essa pauta em julho. E aí decidimos mostrar as peças que estão em cartaz, em São Paulo. Além da trilogia, apresentaremos duas montagens, Liz e Monólogo da velha apresentadora.

Assim como nos espaços dos Satyros 1 e 2, que a companhia detém na Roosevelt, o Sérgio Porto apresenta os trabalhos do grupo em jornada dupla, com duas peças diárias assumindo os horários das 18h30 e 21h. Já a badalada e inusitada sessão da meia-noite, marca registrada da da renovação e multiplicação do público paulista, fica de fora.

Trabalharemos com a mesma dinâmica da Roosevelt. Mas é uma pena não conseguirmos a sessão da meia-noite lamenta.

Acostumados a investir em textos radicais e pouco convencionais, como Woyzeck, de Georg Buchner; Hamlet-Machine, de Heiner Müller; e Killer Disney, de Philip Ridley, Os Satyros tem na trilogia sadeana uma das principais e mais bem-sucedidas realizações. Em cartaz desde 2003, Filosofia... acumula 100 mil espectadores, em cerca de 1.200 apresentações; enquanto 120 dias de Sodoma (2006) já reuniu mais de 600 apresentações para um público superior a 40 mil pessoas.

Elas foram criadas por motivações políticas, Filosofia... em resposta à Era Collor e Sodoma... pelo escândalo do mensalão conta.

A segunda é uma adaptação do original de Sade à realidade brasileira. Em vez dos Alpes, Brasília, e no lugar do castelo de Silling, o plenário do Senado e da Câmara no Congresso Nacional, num contexto de corrupção e decadência das instituições sociais.

Seguimos o exemplo do que Pasolini havia feito em Salò ou 120 dias de Sodoma, ambientando o texto do Marquês à república fascista italiana compara o diretor.

Mais recente montagem da trilogia, Justine (2009) levou mais de nove meses para ser concluída e é resultado de uma imersão na obra do autor. A protagonista é a personificação do puritanismo, dos bons modos e da caridade em meio à cruel e depravada sociedade retratada por Sade.

Justine não é uma desculpa de usar Sade para falar do Brasil. Diferentemente de Filosofia..., que é uma reedição da nossa primeira montagem, Sade ou noite com os professores imorais, de 1990 lembra. À época, viajamos para a Europa e optamos por incluir passagens mais filosóficas, por isso alteramos o nome. Mas é preciso observar todo o sucesso dessa reestreia e das peças que a seguem. Elas são reflexo da contemporaneidade de Sade.

A tal viagem à Europa é um capítulo à parte na história de Os Satyros. E conserva-se como exemplo de uma trajetória esculpida a estocadas do destino e altas doses de risco. Após três anos estabelecidos em São Paulo, Cabral e e Vázquez decidiram se instalar em Lisboa. De 1992 a 2000, apresentaram Nelson Rodrigues e textos próprios ao Velho Continente, circulando pelos palcos dos mais importantes festivais de teatro, como Avignon, Edimburgo e Cambridge. Apesar da valiosa experiência, não deixaram de nutrir o desejo de retornar ao país.

Quando chegamos, éramos praticamente desconhecidos. Voltamos à ativa junto com a Roosevelt. E agora começaremos a trabalhar num projeto que, de certa forma, homenageia a praça.

Rodolfo Vázques acredita que a obra de Sade resiste ao tempo porque antecipa algumas das discussões que se preservam na esteira dos debates culturais do século 20, através das pesquisas de Freud sobre a sexualidade, assim como influenciando pensadores e artistas como Simone de Beauvoir, Salvador Dalí, Luis Buñuel, Pier Paolo Pasolini, Artaud, entre outros.

Sade é sempre polêmico. Tachado de chato ou deslumbrante. Mas é inquestionável a influência e a consistência de sua obra. Deixou marcas profundas na nossa cultura. Descortinou a sexualidade como tema relevante. Freud não conhecia sua obra, mas é possível observar traços da literatura de Sade no que Freud comprovou cientificamente. Foi maldito e incompreendido, mas sua discussão sobre a crueldade nos obriga até hoje a refletir sobre os rumos que tomamos.