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Fim do CD: Virgin Megastore fecha última loja em Nova York

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Ben Sisario*, Jornal do Brasil

NOVA YORK - O som da banda Velvet Underground ecoou na Virgin Megastore da Union Square na tarde deste domingo, à medida que consumidores de música, em busca de pechinchas, se esforçavam para encontrar os poucos itens que continuavam na antes poderosa loja-referência da cadeia de venda de discos na cidade de Nova York. Anteontem foi o último dia de funcionamento das lojas da Virgin Megastore na América do Norte, empresa que, no auge do sucesso, contava com 23 instalações das quais, nesse domingo, só sobraram duas: a tradicional loja de dois andares de 52 mil metros quadrados, em Nova York, e outra de menor porte, em Hollywood, que também estava prestes a fechar. Na Union Square, o que não faltavam eram cartazes anunciando descontos de até 90%, não só de produtos, mas de toda mobília e equipamento. Entretanto, quando a loja abriu, praticamente 90% das mercadorias já tinham sido vendidas, restando apenas uma mesa com CDs e DVDs, uma dúzia de prateleiras de camisetas e alguns outros poucos produtos espalhados.

Devido à crise da indústria fonográfica nos últimos dez anos, não é de se surpreender que lojas como essa fechem as portas. Apesar disso, para muitos consumidores da Union Square, a perda dessa grande rede em uma das áreas mais movimentadas da cidade foi bastante decepcionante.

Infelizmente, lojas desse tipo estão fora de moda desabafa Tony Beliech, 39 anos, ex-funcionário da Virgin que perambulava pela loja com um punhado de CDs nas mãos que, somados, custaram-lhe menos de US$ 20. Mas isso aqui funcionava também como um ponto de encontro social, algo que a compra de música pela internet não pode oferecer.

Muitas lojas de música de menor porte ainda estão abertas em Nova York. De acordo com a empresa de pesquisa de mercado Almighty Institute of Music Retail, há pelo menos dois mil estabelecimentos independentes espalhados pelos EUA. Muitos destes se uniram para promover eventos como Record Store Day (Dia das Lojas de Disco), que comemorou seu segundo aniversário em abril. Eles também vão promover, no próximo dia 20 de junho, o Vinyl Saturday (Sábado do Vinil), que apresentará discos especialmente produzidos por artistas como Wilco e Modest Mouse, a fim de atrair mais consumidores.

Entretanto, o ranking de vendas de lojas de varejo de música sofreu severas reduções nos últimos anos, e Nova York, que já abrigou pelo menos três grandes cadeias de lojas desse tipo, agora não abriga mais nenhuma. No mês passado, a Virgin fechou as portas de uma de suas lojas, localizada na Times Square. (Ainda há grandes lojas da Virgin na Europa e no Oriente Médio, mas estas já não pertencem ao mesmo dono). A empresa segue o mesmo caminho de outras redes de varejo, como a britânica HMV (que encerrou atividades no país em 2004) e a Tower Records (que fechou suas 89 lojas nos Estados Unidos em 2006). A Trans World Entertainment, que faz parte da cadeia FYE, fechou as portas de pelo menos 280 de seus estabelecimentos ao longo dos últimos dois anos, deixando apenas 700 lojas abertas, mas nenhuma que pudesse ser comparada ao tamanho das lojas da Virgin.

Está claro que o antigo modelo de lojas de entretenimento musical, alocadas em amplos espaços, não vai funcionar mais diz Simon Wright, executivo do Virgin Entertainment Group, na América do Norte.

Em certa medida, o fechamento dessas lojas é resultado de uma queda geral nas vendas da já combalida indústria musical. Desde o pico de vendas de 2000 quando 785 milhões de álbuns foram vendidos até o final de 2008, o índice de vendas caiu em 45%, de acordo com a empresa de consultoria Nielsen SoundScan. Entretanto, mesmo com o crescimento do iTunes e de outras lojas de música na internet, os consumidores continuavam elegendo os CDs como formato de preferência, embora quase não houvesse mais vantagem nessa escolha. Em 2006, mais de 90% dos lucros deste mercado se devia à venda de CDs. No ano passado, essa proporção caiu para 84%, e até agora, em 2009, já está em 77%. Cerca de 2/3 das vendas de todos os álbuns são feitas em cadeias de lojas da magnitude das da FYE, do Wal-Mart e da Best Buy, segundo as estimativas do setor.

O Titanic que é a mídia física começou a afundar lentamente em 2000, algo traumático para os empregados neste negócio, mas previsível dentro desta transição para o modelo digital teoriza o analista financeiro Michael McGuire.

O fim das lojas da Virgin, entretanto, é também produto de outras preocupações do mercado financeiro, que não necessariamente têm relação com a indústria da música. A primeira loja americana desta rede foi aberta em 1992, em Los Angeles, e se destacou da concorrência por sua atmosfera informal estabelecida através de sistemas de som de qualidade, bem como pelos descontos incomuns oferecidos.

As lojas menores seguiram este padrão e passaram a aplicá-lo comenta Michael Kurtz, presidente da Music Monitor Network, uma coalizão de cerca de 100 lojas de varejo independentes.

Com a queda das vendas de CD, as lojas de música continuaram oferecendo camisetas, DVDs e outros itens. A instalação da Times Square, por exemplo, apresentava vendas anuais que ultrapassavam a marca dos US$ 50 milhões, segundo mostram os relatórios da empresa, o que torna essa estimativa o recorde mais alto registrado nas lojas dos EUA. Em 2007, a filial americana da Virgin foi comprada por duas imobiliárias, Related Companies e Vornado Realty Trust. Em uma entrevista realizada ano passado, um executivo da Vornado deixou claro que o valor real da cadeia de lojas mencionada não estava em suas vendas e sim no valor imobiliário do ponto em que suas instalações estavam localizadas. Tanto na Times Square quanto na Union Square, relatam analistas, o aluguel das lojas da Virgin era apenas uma parcela da taxa recorrente. A Forever 21, cadeia coreana de lojas de moda, está assumindo o ponto da antiga instalação da Virgin na Times Square; uma porta-voz da Related Companies disse que estava negociando o ponto da Union Square.

Os títulos mais recentes e populares da unidade da Union Square foram liquidados num piscar de olhos. Entretanto, havia um número grande de camisetas da Virgin (vendidas a US$ 1), bonecos do jogo Guitar hero (vendidos a US$ 1, 39) e uma variedade de produtos dos Jonas Brothers. Alguns tesouros ainda estavam escondidos por lá. O senhor Beliech, ex-funcionário e agora cliente, conseguiu adquirir relíquias como CDs do Current 93 grupo folk britânico entre outros artistas, como a banda japonesa hipercinética, Melt-Banana.

Max Redinger, de 14 anos, passeava com seu cão na frente da moribunda Virgin e acabou comprando alguns bonecos de Guitar hero. O garoto conta que compra músicas pelo iTunes e recorda que um amigo o levou recentemente a uma loja física de artigos musicais:

Era um lugar legal, mas realmente não vou comprar nada lá.

* The New York Times