☰

Em novo CD, Marilyn Manson não assusta mais ninguém

Por

Braulio Lorentz, Jornal do Brasil

RIO - Nada mais choca na figura andrógina, nas letras e nas notas controversas que sempre mantiveram o nome artístico de Brian Hugh Warner, 40 anos, vagando entre nós. Em seu sétimo álbum de estúdio, Marilyn Manson canta que deseja f... como num filme estrangeiro e que gostaria de matar a pretendente como se faz nos filmes . A transgressão de I want to kill you like they do in the movies, que foi divulgada antes mesmo do lançamento do disco, é tão rala quanto a das outras 15 canções de The high end of low.

Automutilação com claquete

Para completar o cardápio de citações cinematográficas, o cantor posa para uma foto em que, com uma gota de sangue falso aqui e outra ali, dá a entender que usa uma claquete quando brinca de automutilação. O sofrimento de mentirinha norteia o novo trabalho. Manson arrebata os que tinham e quem não possuía idade para se entusiasmar com seu primeiro disco, Portrait of an american family, lançado em 1994.

No álbum anterior, Eat me, drink me (2007), toda a angústia por conta do fim de seu casamento com a atriz Dita Von Tees foi o combustível para um disco tão apaixonado quanto morno. Além da retomada ao período mais superstar anticristo , o novo CD também marca a volta da parceria com o baixista Twiggy Ramirez, que ficou no Nine Inch Nails até o final de 2007. Coautor de sucessos dos primeiros e mais platinados discos de Manson, Antichrist superstar e Mechanical animals, a presença de Ramirez em parte explica a insistência em recursos usados à exaustão pelo colega branquelo.

Embora fique evidente a tentativa de demonstrar que a fase sombria já era, o lenga-lenga sobre uma possível retomada não cola. Quando carrega no peso, entrega o rock industrial Pretty as a swastika, no qual urra: Quando te vejo ao sol você é tão bonita como uma suástica . É uma pena que hoje o discurso de Manson, personagem divertido nos anos 90, seja menos polêmico do que uma festa da Adidas no Rio.

Sem tanta barulheira e domando seus grunhidos, o cantor e compositor até que se sai bem em baladas como Unkillable monster e Four rusted horses, dona do refrão Todos irão, todos irão... Ao meu funeral para ter certeza de que eu estou morto . Into the fire é outra que une lentidão a pingos de originalidade (e de outros fluidos, sempre). Mais uma vez, longas-metragens dominam a temática: O filme está próximo do terceiro ato de penúria/ Não é chuva, seus lobisomens violadores, é Deus mijando em você .

Refém de seu histórico e da estética barulho-silêncio-barulho com letras que lembram uma paráfrase das já lançadas, Manson patina no próprio sangue. O rapper Eminem tem companhia no limbo dos ícones americanos em crise.