Clube do Balanço ultrapassa os guetos paulistas com álbum autoral
Cecilia Minner, Jornal do Brasil
RIO - O Clube do Balanço que, em maio de 2000, comandava seu primeiro baile ditado por clássicos do samba-rock num salão comunitário em São Paulo, arrisca-se agora lançando um álbum 100% autoral. Se em seus primeiros CDs, Swing e samba rock (2001) e Samba incrementado (2004), dividiam canções autorais com músicas de Erasmo Carlos, Seu Jorge e Paula Lima, em Pela contramão o balanço é assinado pelo Clube. A banda que exibe uma semelhança sonora com os cariocas Brasov e Fino Coletivo, mostra que além de botar para dançar sabe compor.
A gente queria inovar, expandir os horizontes do samba explica o vocalista Marco Mattoli, 44 anos. O disco é composto por toda a equipe. É realmente um disco da banda. Tem composições também em parceria com o letrista Rodrigo Leão, e com os músicos Renato Dias e T. Kaçula.
O movimento samba-rock, iniciado nos anos 70, parece ter reconquistado o fôlego nos últimos anos com o Seu Jorge (já na época do Farofa Carioca). No Rio, o gênero ganhou festas dedicas a ele. Mas em São Paulo o terreno para os grandes bailes é bem maior. Porém, em 98, quando o Clube do Balanço começava a manifestar-se, passou a ser visto como carros que iam na na contramão.
Quando começamos todo mundo dizia que o samba-rock estava morto, que a gente devia fazer pagode romântico conta Mattoli. Começamos a tocar no salão Cohab (em Artur Alvim), depois passamos para a Vila Madalena, mas era só para quem conhecia mesmo o baile. Não era música para as classes mais altas, formadoras de opinião. Hoje é diferente, há casas noturnas aqui em São Paulo, como o Teatro Mars, voltadas só para o samba-rock. Mas nos consideramos ainda na contramão por estarmos lançando um CD autoral. Agora que o Clube do Balanço tem um certo nome é que deveríamos convidar os músicos conhecidos para participar do disco. O que fizemos no primeiro CD.
O Clube tem fortes traços de artistas que em outras épocas flertaram com o samba-rock, como Tim Maia, Black Rio e Simonal. Mas o terceiro CD do grupo integrado por oito músicos independente, rompeu as fronteiras do gênero samba-rock, e ganhou notas do jazz, soul e samba de raiz.
Somos considerados uma banda de samba. Todos fortemente ligados a esse universo conceitua Mattoli. Mas temos outras influências. As faixas instrumentais, por exemplo, saíram bem jazzísticas. Pra não dar bandeira (do pianista Marcelo Maita) ficou num estilo João Donato. Já Morando no sapato (do trompetista Reginaldo 16, e dos trombonista Tiquinho e Marco Mattoli) lembra Moacir Santos. A última música, Seu Alberto (do baixista Gringo Pirrongelli), é uma homenagem a Herp Albert, um grande trompetista americano que tinha um flerte com o Brasil.
A sonoridade do soul é perceptível em Galaxi dourado (Marco Mattoli, Edu Salmaso e Renato Dias), uma homenagem explícita a Hyldon, autor da cultuada Na rua, na chuva, na fazenda.
A gente também flerta com o samba de raiz em E como o vento foi embora (dos vocalistas Tereza Gama e Marco Mattoli), que lembra muito as canções de João Nogueira avalia Mattoli. O Fred (Prince, percussionista) tocou com João Nogueira. E o Maita com Simonal, um dos artistas que reverenciamos.
Pela contramão segue uma temática similar a Seu Jorge: exalta vez ou outra a figura feminina. Preta rara (do guitarrista Luis Vagner e Marco Mattoli) e Sensacional Brenda Ligia (Marco Mattoli) são elas.
Antes de terminar o disco, o Clube do Balanço faz uma pausa para uma meditação budista em Fazendo nada (Gringo Pirrongelli), inspirada em uma filosofia da banda de ter tempo para não fazer nada .
O Clube do Balanço se lançou com o disco Swing e samba-rock, que foi muito bem aceito por crítica e público. Mas foi com Samba incrementado que ganhou certa notoriedade: em turnê com o disco, tocou mundo afora.
Com o segundo CD, em que regravamos clássicos tirados do baú, como Zula, de Jorge Ben, fizemos duas turnês pela Europa frisa Mattoli. Tocamos em festivais de músicas internacionais como na Itália, Alemanha, Bélgica, Finlândia e outros países, em 2007 e 2008.
Nos palcos cariocas, o grupo já tocou cinco vezes (na Estrela da Lapa e num show na Marina da Glória, que Bebeto, Erasmos Carlos e Orlandivo participaram). Com Pela contramão eles já sabem que vão para Porto Alegre e Belo Horizonte. Por aqui, há expectativas de tocarem no Estrela da Lapa, no segundo semestre. Certeza mesmo eles só têm de que não farão um show só com músicas autorais.
Vamos fazer uma mistura de canções autorais e clássicos adianta. Tem que haver o bailão com um clássico ou outro. Especialmente porque a nossa proposta é fazer o pessoal dançar. Além do mais nascemos como uma banda que cultuava o baile.
A partir da semana que vem o novo CD pode ser comprado nas lojas Fnac e nas livrarias Cultura.
O álbum pode ser encontrado também nos sites de download brinca Mattoli, que garante não se importar com esse tipo de pirataria. Sou absolutamente a favor dos downloads, é uma maneira de difundir música. Só é péssimo mesmo para quem é de uma grande gravadora.
