Em 'Cinzas do espólio', Ivan Junqueira não faz da erudição um escudo
Henrique Marques-Samyn*, JB Online
RIO - Justamente reconhecido como um dos mais importantes poetas brasileiros da atualidade, Ivan Junqueira também vem construindo uma obra crítica e ensaística de valor. Prova disso é Cinzas do espólio (Record, 336 páginas, R$ 45), volume que reúne prefácios, apresentações, ensaios e conferências produzidos nos últimos anos, nos quais se vislumbra o rigor e o vigor de uma inteligência ímpar no cenário contemporâneo. Ao longo da obra, composta por 30 textos, Junqueira visita a poesia brasileira e estrangeira, de ontem e de hoje; trata de assuntos teóricos, como a criação e a tradução literária; e avalia o legado deixado para a cultura brasileira por figuras como Otto Maria Carpeaux e Francisco Alves. Se os escritos possuem extensão variada, é comum a todos a perspicácia e a profundidade analítica.
O primeiro ensaio do livro, Cervantes e a literatura brasileira texto de uma conferência apresentada em Madri, em 2005, por ocasião das comemorações do quarto centenário de publicação da primeira parte da obra-prima cervantina é uma boa amostra da acuidade com que Ivan Junqueira encara a tarefa de refletir sobre a literatura. Recusando-se a limitar sua abordagem a uma ou a outra perspectiva, Ivan Junqueira pondera sobre o lugar histórico ocupado pelo Quijote; sobre a convergência entre realismo e idealismo na escrita cervantina; e sobre a recepção da obra, do século 17 até a contemporaneidade, tanto no âmbito literário quanto no crítico e ensaístico. É com o Dom Quixote que nasce o romance moderno, ou o embrião de todos os romances realistas, já que André Malraux o pretere nessa condição de primazia a La princesse de Clèves, de madame de Lafayette, pois teria sido este o primeiro romance moderno na medida em que se lhe reconhece como o primeiro romance psicológico, interior, construído em torno das razões do coração , observa o ensaísta, para logo completar: Mas o Dom Quixote dá início a algo de muito maior . Se facilmente um texto com esse alcance poderia resvalar no pernosticismo, a elegância da prosa de Junqueira em que se fazem presentes a concisão e a precisão características do estilo dos melhores poetas cuida de transitar com leveza entre uma pletora de citações e referências.
Entre os melhores ensaios do livro, destacamos também A criação literária , que reflete sobre os procedimentos adotados por aqueles que se lançam a esse labor criativo a partir de uma dupla abordagem: histórica Junqueira discorre sobre antigos e modernos com notável familiaridade e teórica o que conduz a instigantes observações sobre temas como a mimese poética e elementos fundamentais da prosa, como o enredo e o narrador. Mais importante é notar que o ensaísta não faz da erudição um escudo, jamais se furtando a expressar sua opinião sem recorrer a quaisquer evasivas. Ao tratar, por exemplo, dos teóricos e escritores que preconizam um colapso do romance após a publicação do Ulysses de Joyce ou da obra de Kafka, afirma: Pessoalmente, não acredito nesse impasse, pelo menos nos termos em que atualmente ele é colocado, e aqui seria o caso de lembrar que a produção de romances, seja no estilo tradicional, seja de acordo com o que propõem as vanguardas, permanece inalterada ; observação a que acrescenta, com pertinência: Condenar à morte a poesia ou a prosa de ficção corresponde a assumirmos a condição de algozes da própria criação literária .
Tanto nos textos de maior fôlego quanto nos mais breves estes, em sua maioria, prefácios e resenhas Junqueira exercita a tarefa crítica com notável lucidez, mantendo-se rigorosamente à distância dos maneirismos e idiossincrasias tão comuns no meio cultural brasileiro. Deve-se justamente a essa independência, sintoma aliás de integridade intelectual, a consistência analítica que se percebe no livro. Obra marcada por um denso pendor reflexivo, Cinzas do espólio se inscreve na melhor tradição ensaística brasileira, reafirmando a eminente posição ocupada por Ivan Junqueira entre os pensadores de nossa literatura.
* Poeta, cursa o doutorado em
literatura comparada na Uerj.
