Aos 66 anos, Bob Dylan mostra energia em blues e baladas

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Marco Antonio Barbosa, Jornal do Brasil

RIO - Nesta terça-feira sai nos EUA (e, prometeram, também no Brasil) o 33º disco de estúdio de Bob Dylan. Together through life é um disco rústico, feito de blues e baladas que parecem escavar o passado do próprio cantor antes do Dylan elétrico, antes mesmo de sua fase de trovador folk. As referências estão no rhythm'n'blues primevo, na primeira geração do rock'n'roll, no country blues de raiz, ou seja, o que Dylan (quando ainda se chamava Robert Zimmerman) ouvia antes de fama. Com toda a autoridade do mundo, o cantor reinventa um bom pedaço da música popular americana (algo que, na verdade, vem fazendo toda sua vida) e dá um olhar embevecido para o passado.

O resultado é mais nostálgico do que o ouvido nas resolutas canções de Modern times (2006), seu último trabalho. Mas o vigor com que Dylan, 66 anos, se entrega à tarefa comprovado por quem assistiu ao show que o homem fez no Rio, ano passado confirma que o tempo dele é agora. E que, mesmo explorando gêneros musicais ancestrais, o velhinho não soa estagnado, nem parece descansar sobre o status de lenda viva.

Desobrigado, afinal, de inventar moda, Dylan se limita a mandar o recado no capricho. Uma instrumentação básica, na qual a guitarra (e não o violão) ocupa junto à sanfona o primeiro plano, circunda com eficiência a voz em pandarecos, especialmente quando Bob tenta cantar de verdade, como na pungente Life is hard. Mas na verdade a garganta destroçada só acrescenta mais verdade às narrativas. E cai bem num disco em que todas as canções, mesmo as mais lentas ou emocionadas, pulsam de modo energético.

O groove monstruoso de Beyond here lies nothing (uma das melhores músicas de Dylan em vários anos) foi escolhido com sapiência para abrir o disco. E encontra bom par nos blues invocados de My wife's home town, Jolene e Shake shake mama. A batida acelerada de It's all good fecha o disco, com seus solos faiscantes. No recheio, há momentos mais ternos. O coração sertanejo bate mais forte em If you ever go to Houston, narrando uma viagem ao Texas e em The dream of you (com rabeca e solo de steel guitar). E a bela I feel a change comin' on nos faz lembrar dos bons tempos da The Band, com seu balanço que combina country e soul som branco e negro, caipira e descendente de escravos, a música do coração da América, que Dylan prova entender tão bem.