Cineasta carioca expõe sua dependência do fumo em documentário

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Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO - Todo mundo gosta dos vilões. Nos filmes, nas novelas, nos palcos, é sempre o personagem malvado que rouba a cena. O documentário Fumando espero, estreia da cineasta Adriana Dutra no longa-metragem, em cartaz a partir desta sexta-feira, é um ensaio sobre um dos vilões mais controversos da atualidade: o cigarro. A ambiguidade perversa do produto, que maltrata seus usuários ao mesmo tempo em que lhes dá prazer, é documentada pela lente da diretora, que não se acanha em filmar a sua própria dependência. Todo o ódio, fascínio e obsessão causados pelo cigarro aparecem em depoimentos de fumantes (famosos ou anônimos) e na experiência de Adriana, que expõe diante das câmeras sua árdua luta contra o vício.

Ninguém é indiferente ao cigarro afirma Adriana. Por isso que eu digo que este é um filme para quem ama, já amou ou odeia o cigarro. Todo mundo está ligado ao assunto. Ou fuma, ou já parou, está tentando parar, odeia quem fuma ao redor ou tem um parente afetado pela doença. Sem falar que a discussão sobre o tabagismo nunca esteve tão forte.

Logo na abertura do filme, um depoimento marcante. A câmera foca o pescoço de uma personagem, marcado pela traqueostomia. Ela ri, e em sua voz fraca e rouca quase não se ouvem as palavras: O cigarro é o vilão gostoso da minha história .

A partir daí, está colocada a pergunta: como algo capaz de causar tantos prejuízos pode seduzir tanto? Médicos, psiquiatras, fumantes e ex-fumantes tentam buscar explicações. Além do seu papel de entrevistadora, a contribuição de Adriana para uma resposta é a de servir como cobaia. Em pleno réveillon, enquanto fogos brilham no céu de Copacabana, ela aponta para a câmera seu último cigarro.

É aí que começa a guerra brinca a cineasta. Eu me emprestei ao documentário para dar mais humanidade, até porque não queria fazer um filme chato. Eu mesma não conseguia parar de fumar e queria mostrar com meu próprio exemplo como é difícil ser dependente e cair nas garras do vício.

Sobre seus próprios momentos de angústia e sofrimento documentados, Adriana não poupou a si mesma. O documentário mostra-a em momentos de desespero, abatida, esgotada, colando adesivos de nicotina em seu corpo.

Sabia que estava dando a cara à tapa e que teria crises de abstinência. Mas procurei ser honesta. Tanto que no filme volto a fumar várias vezes, mostro meu fracasso. A grande maioria das pessoas que para de fumar não consegue de primeira.

Há, claro, a lista dos métodos bizarros de tratamento ( Trato cada dependência como um caso diferente , diz um dos médicos), e também depoimentos divertidos, como a cantora Miúcha dizendo que se não parasse de fumar estaria agora fazendo solos de tosse e piano , ou a lembrança de mais uma das geniais frases de George Bernard Shaw: Parar de fumar é fácil. Eu mesmo já parei mais de 100 vezes .

Além do esquema Super size me, (documentário em que o diretor Morgan Spurlock passa 30 dias consumindo exclusivamente produtos do McDonald's para testar os efeitos físicos em seu corpo), no qual Adriana se doa como objeto físico, científico e dramático do documentário, Fumando espero também segue uma linha Michael Moore quando decide investigar os segredos sombrios da indústria tabagista, principalmente as relações de quase-escravidão que exercem com os plantadores de fumo, atolados em dívidas (não por acaso, as áreas de plantação são listadas como as de maior índice de suicídio). Como o gorducho americano, ela é barrada na porta das indústrias.

Tentamos de todas as maneiras falar com eles, seja através da comunicação, do marketing, do jurídico, mas todos se negam revela. É uma indústria inteligente, perversa, que sabe manipular.

Diretor-cobaia, uma profissão arriscada e em voga

Por Carlos Helí de Almeida

Ao sair em campo oferecendo o próprio corpo (e a experiência) em nome de uma causa ou teoria, a diretora Adriana Dutra emparelha-se com uma linhagem que tem ganhado cada vez mais força na praça: o documentarista-cobaia. Senso de humor, uma certa dose de impertinência e pendor para o autoflagelo público estão entre os principais requisitos dessa geração, que tem em Michael Moore (Fahrenheit 11 de setembro, 2004) seu mais antigo praticante e em Morgan Spurlock (Super size me: A dieta do palhaço, 2004) um de seus principais entusiastas.

Pode-se arriscar a dizer até que a abordagem de Spurlock é até mais radical que a de seu colega americano. Moore está sempre diante da câmera, como interlocutor ou investigador, desmascarando o ex-presidente George Bush (Fahrenheit) ou advogando contra o sistema de saúde de seu país (Sicko, 2007). Mas Spurlock tem ido além: submeteu-se a uma dieta de hambúrgueres e batatas fritas do McDonald's por mais de um mês, registrando os efeitos do regime em seu corpo em Super size me. No filme seguinte, Where in the world is Osama Bin Laden? (2008), pôs-se ele mesmo a rastrear os passos do terrorista mais procurado do planeta.

Dentro dessa linha de documentário investigativo já há quem mande o amor próprio e a autoestima às favas. Em Todos os meus fracassos sexuais (2008), o diretor britânico Chris Waiit tenta entender a razão do fiasco de sua vida amorosa. Para isso, bate na porta de cada ex-namorada para perguntar o que deu errado na relação. Mais curioso do que o perfil das ex-amantes muito diversificado são as estratégias que o diretor-cobaia se submete para aliviar a sucessão de frustrações: overdose de viagra, encontros on-line pela internet, sessões com uma dominatrix. Pode até ser menos doloroso que tentar parar de fumar, mas os estragos à imagem...