Artigo: "Verdadeiro Leblon"

Por

Mario Marques, Jornal do Brasil

RIO - Sinto desavergonhadamente a falta da falta das esquinas. A falta da falta de botequins do lado de casa. A falta da falta de andar a pé. Tento explicar e vai ser assim até a última linha: como todo (bom) carioca apregoa, quem mora na Barra da Tijuca habita outra cidade, outro mundo, outros cheiros e climas. Ao revelar a um compatriota a moradia além do Zuzu Angel, o sujeito de Laranjeiras a Gávea costuma estufar a peitola e dizer: Nossa, é ruim lá, né? . Pois, do relevo de minhas primeiras impressões urdidas na nova sacada do Alto Leblon, após 20 anos dedicados à vida na Miami brasileira , decreto, para sobressalto de muitos, certo saudosismo daquele pedaço de areia no qual moram (ou moravam?) Eduardo Paes, Zeca Pagodinho e Luciano Huck e Angélica. Para um antissocial patológico como eu, os primeiros dias no bairro de Caetano, Chico e João Gilberto foram de reflexão pura mas nada simples. Mitos caíram, outros renasceram. Mas nem um nem outro com a força centrífuga de imagens como a do hotel Marina quando acende/ não é por nós dois ou a do inverno no Leblon é quase glacial . Isso é cinema em seu estado mais brutalmente musical. Ainda observo.

Troquei de escada. A de minha casa, que tirava o sono de todos com a descida e subida da Beatriz, pela que desce da Sambaíba até a Aperana e desemboca na Ataulfo. O carrinho de bebê provavelmente o mais barato da loja que pesava e empurrava o nervo hérnia cervical adentro agora é carregado em cinco lances distintos. Minhas idas ao posto de conveniência estocar amendoim Agtal e Fanta Uva light são neste momento razão de encontros intermináveis e chatíssimos. Na primeira descida pela Dias Ferreira, o Fashion Rio com CEP, demorei exatos 40 minutos até chegar ao supermercado Zona Sul, tal o número de conhecidos a puxar qualquer tipo de papo. Não mudasse de calçada, teria desistido, pegado o carro e voltado ao Bosque Marapendi.

Em 1969, se Lucio Costa tivesse incluído no Plano Piloto um condomínio só de globais, com uma mansão exclusiva para o novelista Manoel Carlos, o destino de nós, os emergentes , seria completamente distinto. Talvez não custasse aviltantes R$ 4 milhões um dois quartos simplório na Delfim Moreira, resultado de um catatau de novelas manoelcarlianas com cenários leblônicos. Talvez a falta de esquinas da Barra fosse, caso Chico mantivesse um campão ao lado de sua casa para os jogos do lendário Politheama, um charme. Mas não. Barrenses como nós estão rotulados para sempre como tijucanos que querem ficar mais perto da praia.

Nas primeiras passadas largas pelas vísceras do Leblon, fugindo de músicos, produtores, coleguinhas que se esbarram como moscas num balcão de padaria, caiu a ficha de uma sensação das piores. Antes um invasor que usufruía o Carlota, o Quadrucci, a Pizzaria Guanabara e o Jobi como programas, agora fujo deles. Perderam sua graça, seu glamour. Sinto-me, agora como morador, invadido. A Dias Ferreira, no outono de Ed Motta no Rio, lembra-me os arredores da Praça Capivari, a São Paulo Fashion Week com CEP de Campos do Jordão. Há filas intermináveis nos restaurantes, lojas e botecos. Pior: com a vitória do Flamengo sobre o Botafogo, o Leblon se transformou no único lugar onde eu não deveria estar lembro aqui que na Barra, com sua falta de esquinas e botecos, tudo estaria calmo. Até que avisto o Pronto, aquele restaurante no fim da DF que cisma em ficar vazio. Provavelmente porque Manoel Carlos esqueceu sua existência. Só há duas mesas ocupadas entre as dezenas às moscas à espera das celebridades que certamente não passarão por lá. Circula até um manifesto de donos de estabelecimentos desprezados pelo novelista que farão em breve uma manifestação intitulada Viver a vida é aqui também, alusão à próxima novela de Manoel Carlos.

No meu refúgio barrense, não havia um só ruído dissonante. E olha que em frente ao prédio jazia um bosque loteado de cachorros. Nos meus primeiros dias alto-leblonenses, topei com três focos de barulho, dois crônicos e outro, dizem-me aqui, anual, pontual. Acima da minha cabeça passam aviões que, estivesse em Nova York, pensaria se tratar de mais uma ação terrorista. Um pouco mais perto há um músico que, ao cair da tarde, exercita seu baixo tocando as linhas de Ten, clássico do Pearl Jam. Para quem já ouviu uma passagem de som de bateria deve saber que a de baixo é a segunda pior coisa do mundo. Mas não acabou. Na tarde de sábado, subindo a ladeira, ouço sambas de Noel Rosa nas alturas. Venho a saber que é a feijoada de aniversário de um colega. Está perdoado por isso. Tranco a porta e vou dormir.

A manhã no Leblon é uma festa de vizinhos. É tanto bom-dia que o pão quentinho da Rio-Lisboa ou do Talho Capixaba esfria na volta. Ainda não encontrei o Guinga, morador da Carlos Góis. Sonho caminhar do Leblon ao Arpoador com este santo compositor da MPB. E dar adeus ao Chico, habitué do trajeto. Autor com a alma molhada de subúrbio, assim como eu, o violonista, com Aldir Blanc, resumiu meus sentimentos ainda divididos entre Leblon e Barra em Pra quem quiser me visitar:

Fiz o meu rancho lá nas nuvens/onde se pode conversar, onde os anjinhos são cor de chope.../Tomo cuidado só em debruçar/vendo o mar, aí.../Toco piano e a virgem canta/ diz pro Menino: Tio Tom/Senta à vontade a cocha santa/me dá saudade de Leblon/Sei das manhãs/que só nascem de tarde/entre silêncios de alardes/vi que o Sol sente inveja das asas do Urubu.../Aos meus amigos que ficaram/um portador há de levar/um par de asas/e um paraquedas pra quem quiser me visitar . Uma coisa a Barra não vai me dar jamais. Ter como vizinhos Chico e Guinga. Falta só o Aldir Blanc. Se ele sair da Tijuca, certamente não pisa a Barra. Lá faltam botecos na esquina.