Um sonho de cinema em NY

Por

Franz Valla, JB Online

NOVA IORQUE -

A oitava edição do Tribeca Film Festival, que começa nesta quarta-feira, traz mais uma vez em sua programação uma lista variada de gêneros e diretores de diferentes nacionalidades, fiel à filosofia de um evento cuja prioridade é mostrar o que há de novo na indústria do cinema independente. Mais da metade dos 86 filmes da mostra é de diretores estreantes, cujo trabalho é praticamente desconhecido da indústria e do público. Este é o caso de Gandja Monteiro, esperança brasileira na mostra competitiva de curtas de ficção. A brasileira de 25 anos formou-se em cinema pela prestigiosa Universidade de Nova York em 2007 e sua produção inclui apenas dois outros curtas: Emil, que produziu ainda na faculdade, e She is a blur, seu trabalho de formatura. A entrada de Almost every day na programação oficial do Tribeca Film Festival marca chegada de Gandja ao mercado profissional de cinema.

Moradora de um apartamento na 5th Street, na área do East Village, desde a adolescência, a brasileira se diz um pouco nervosa em sua primeira entrevista, feita no Lil Frankies, aconchegante restaurante a poucas quadras de sua casa. Também confessa que ainda está surpresa com sua inclusão no festival. Gandja diz ter nascido em Nova York por acidente os pais, a modelo Neneca Moreira e o poeta Orlando Moreira, estavam numa fase pós-hippie, em viagem ao redor do mundo com mochilas nas costas. Acabando de chegar da Indonésia, decidiram ficar por um tempo. Permaneceram por três anos e retornaram ao Brasil. São mineiros, mas foram viver na Gávea. Por isso Gandja se considera carioca.

Estudando na escola de 'Fama'

As primeiras lembranças que tenho como gente são da minha infância no Rio recorda Gandja. Não lembro de nada até os meus 3 anos.

Já adolescente, os pais se separaram e acabou retornando a Nova York com a mãe para morar no East Village, onde se estabeleceu. Sua educação secundária foi no LaGuardia High School, que serviu de cenário para o filme Fama (1980). Foi lá que tomou gosto pelas artes cênicas. Aos 16 anos estudou teatro, mas um curso de verão gratuito sobre cinema a fez se decidir pela carreira de diretora. Seu empenho foi tão grande que conquistou uma bolsa de estudos parcial para cursar cinema na mesma faculdade. Seu ano de formatura seria 2006, mas um convite para filmar a turnê europeia da banda Fugees em 2005 atrasou o diploma em um ano. Desde então produziu e dirigiu com dinheiro do proprio bolso os curtas Emil e She is a blur, os dois ambientados em Nova York. O curta que poderá lhe dar a projeção esperada, Almost every day, foi um passo mais longo.

Prefiro chamá-lo de Quase todo dia porque é uma producao 100% brasileira diz, sem esconder o orgulho com o curta que conta o cotidiano de mãe e filha num subúrbio carioca. O filme foi feito à base de mutirão. Fiz o roteiro com a Polly Marinho e filmamos tudo em três dias. Nosso dinheiro era curto e só as 10 pessoas que trabalharam na parte técnica receberam cachê. Foi uma produção meio neo-realista.

Gandja não acreditou quando soube que estava na mostra.

Mandei um DVD para me inscrever no festival com a mesma esperança com que enviei o mesmo para uma dezena de outros festivais de curtas pouco conhecidos, como por exemplo o Palm Springs Festival, onde são mostrados quase 300 curtas a cada ano relembra a diretora. Tomei um susto quando me ligaram para informar que estava na mostra. Se fosse uma resposta negativa,teria vindo por email! Agora que fui selecionada para o Tribeca, estou recebendo convites quase que diariamente para participar de outros festivais.

Tem prêmio em dinheiro?

Ao saber (pela reportagem do Jornal do Brasil) que seu filme está na mostra competitiva, ela se mostrou ainda mais surpresa:

Quer dizer que ainda pode rolar prêmio em dinheiro? Quanto? Caso seja premiada, receberá US$ 5 mil e mais uma obra de arte, das 10 que foram doadas ao festival por artistas nova-iorquinos.

Gandja confessa que não se sente seduzida pelos holofotes e que só tem a agradecer a todas as pessoas que participaram na produção de seu filme. Agora só pensa em produzir o primeiro longa:

Tenho muitas ideias e roteiros não faltam. Quero voltar a trabalhar com meus amigos . Se o patrocínio não aparecer, vamos fazer do nosso próprio bolso mesmo. Se quero fazer uma coisa, vou e faço. A produção de Almost every day foi assim. Se ficássemos esperando para aparecer um dinheiro que não viria estaríamos até agora sonhando em aparecer no Tribeca Film Festival.