No escurinho das coxias

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Daniel Schenker, JB Online

RIO - As ferramentas do cinema estão indo parar nas coxias. É cada vez maior o interesse de diretores e companhias teatrais em investir na realização de filmes a partir de seus espetáculos. Não se trata só de registrar montagens e nem de apostar em transposições desvinculadas das encenações, mas de fazer cinema de verdade, com todas as suas peculiaridades. O Oficina, de José Celso Martinez Corrêa, vem documentando espetáculos desde 2001, quando Ham-let, Bacantes, Cacilda! e Boca de ouro foram gravados em DVD. Entre 2002 e 2006 se engajaram num projeto monumental: levantar Os sertões, obra de Euclides da Cunha que rendeu cinco montagens - A terra, O homem 1, O homem 2, A luta 1 e A luta 2. Cada uma das partes foi filmada por um diretor diferente (respectivamente, Tommy Pietra, Fernando Coimbra, Marcelo Drummond, Elaine César e Eryk Rocha).

Filmamos com a presença do público. Claro que ocorrem mudanças. É importante que os atores se posicionem com rigor diante da luz e que se movimentem com mais lentidão enumera Camila Mota, atriz do Teatro Oficina. A trilha sonora deve ser inserida em volume mais baixo .

Filmagens em Canudos

Os integrantes do grupo desejam exibir os filmes que compõem Os sertões no cinema e na TV Brasil. Cenas em Canudos, onde a companhia esteve no final de 2007, foram captadas por Ava Rocha e vão entrar nos extras. Outras montagens ganharam registro como parte das comemorações dos 50 anos do Teatro Oficina, como Vento forte para papagaio subir, peça autobiográfica de Zé Celso transportada para o DVD pela própria Camila; Taniko, a cargo de Gabriel Fernandes; Bandidos, filmada por Elaine César, e Cypriano & Chan-ta-lan, por Marcelo Drummond.

De São Paulo, o Teatro da Vertigem, capitaneado pelo diretor Antonio Araujo, e Os Satyros, conduzido por Rodolfo García Vázquez, estão tendo alguns de seus espetáculos levados para o cinema por Evaldo Mocarzel. Em relação ao Vertigem, Evaldo decidiu extrair dois filmes do monumental BR-3, radiografia do Brasil apresentada no Rio Tietê e na Baía de Guanabara.

Filmei a peça na íntegra, com oito câmeras digitais, fragmentando por meio da linguagem cinematográfica. Também resgatei o período de ensaios através de entrevistas - conta.

Evaldo Mocarzel se aproximou de Os Satyros, grupo que revitalizou a Praça Roosevelt. Mergulhou num documentário sobre a companhia e filmou várias encenações Filosofia na alcova, 120 dias de Sodoma, Divinas palavras, A vida na Praça Roosevelt, Inocência e Vestido de noiva.

Evaldo também focou no dramaturgo e diretor Newton Moreno, que costuma trabalhar com o grupo Os Fofos Encenam: adaptou A cicatriz e a flor para o formato de curta e filmou Assombrações do Recife velho e Memória da cana. Com o Grupo XIX de Teatro, de Luiz Fernando Marques, registrará a passagem de Hysteria pelas cidades de Santa Catarina castigadas pelas chuvas.

O Grupo Galpão também vem externando desejo de gravar suas montagens em DVD. Mas não só : Paulo José filmou a temporada de Romeu e Julieta no Globe Theatre. Kika Lopes e André Amparo fizeram um documentário sobre os mais de 20 anos da companhia. E o Galpão acaba de lançar o DVD de A paixão segundo Ouro Preto, realizado a partir do espetáculo A rua da amargura.

Gravamos como um especial da Rede Globo em 2001. Fazia parte de um projeto do Paulo José, voltado para a valorização do teatro e de atores menos conhecidos - relembra Eduardo Moreira, ator do grupo mineiro.

Recentemente, o grupo viveu uma experiência singular com Eduardo Coutinho, que propôs registrar três semanas de ensaios de uma peça, de início, não revelada - acabou sendo As três irmãs, de Tchekhov, sob a direção de Enrique Diaz.

- Coutinho é inquieto. E interessado no inacabado. Filmou tudo o que fizemos em 136 horas - relata Coutinho, a respeito do inédito Moscou.

Companhia especializada no teatro político, a paulista Latão vem investindo num núcleo de cinema e vídeo. Nos últimos tempos, deu vazão a um experimento cinematográfico - Entre o céu e a terra, concebido a partir de A cartomante, de Machado de Assis. O grupo foi norteado por uma proposta peculiar.

- Filmamos sem som. Os atores ficam encarregados de produzir os sons ao vivo, no palco, durante a exibição anuncia o diretor Sérgio de Carvalho. Procuramos provocar um atrito entre o acabado e o inacabado.

Assim, os atores complementam no presente da cena um material previamente gravado. Além disso, abordam o cinema como algo inacabado, quando, na verdade, essa qualidade costuma ser atribuída ao teatro, que começa e termina todas as noites diante do espectador.

A Vigor Mortis sempre apostou no parentesco entre teatro e cinema. O diretor Paulo Biscaia Filho adaptou para o cinema uma de suas montagens, a de Morgue story - Sangue, baiacu e quadrinhos.

Na minha adolescência, queria ser diretor de cinema e não de teatro. No entanto, percebi que dava para trabalhar na interseção entre as duas áreas.

Paulo Biscaia também pensou em levar outro de seus espetáculos, Graphic, para o cinema.

Mas Graphic tem uma estrutura mais próxima de uma peça de teatro diz o diretor, que faz referência ao cinema de Sam Raimi e pretende percorrer diversos festivais internacionais antes de lançar o filme no circuito brasileiro. Raimi alcança um raro equilíbrio entre o medo e a diversão.