Contos de Beatriz Bracher levam ao limite exato o uso da linguagem

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Alvaro Costa e Silva, JB Online

RIO - Há pouco mais de um ano, no auge da comoção popular e da histeria mediática provocadas pela morte da menina Isabella Nardoni, de 5 anos que foi jogada da janela do prédio de apartamentos onde vivia com o pai e a madrasta Beatriz Bracher também surtou. Um surto diferente, de escritora, que a levou a elaborar, quase de um jato, o conto Cloc, clac (crianças, a cidade, a sala) , um dos mais impactantes e bem construídos da recém-lançada coletânea Meu amor. Literatura a quente.

É uma coisa que não acontece comigo em geral, mas não consegui parar de escrever revela Beatriz. O conto chegou a ter cinco vezes o tamanho que tem. Era quase uma novela. Comecei a digitar letras erradas, porque o processo era muito rápido. Parecia que precisava falar demais, escrever demais, para conseguir entender que uma menina morreu. Quando acabei, limpei, limpei, e vi que o assunto também era a falação. Uma menina morreu, e ter tantas palavras em volta disso, e repetidas tantas vezes, que a gente não pode mais se lembrar do horror. Como se as palavras tivessem o dom de matar a morte.

É exatamente o uso da linguagem que dá dimensão de arte à história retirada do noticiário policial e também o que a faz ficar a léguas de distância do sensacionalismo e da banalização dos fatos. A escritora não deixou passar a estranha coincidência do L dobrado que macabramente marcou o caso: no conto, a letra repete-se nos nomes Isabella, Anna, Vila Mazzei, Villa Londdon, casal Serddovi. E daí para palavras comuns do texto: noticiáriio, dellegacia, madrastta, ppai, mmenina, ampliando-se a sensação de pane e pânico que envolve o relato.

Meu amor título que aparece em inglês no último texto, em forma de letra de canção à la Roberto & Erasmo é o primeiro livro de contos de Beatriz Bracher. Ano passado, ela publicou o romance Antonio, que foi finalista dos maiores prêmios literários do país (Jabuti, Portugal Telecom, São Paulo), mas sempre encontrou em seu caminho o imbatível O filho eterno, de Cristóvão Tezza. A estreia na história curta foi pensada:

Tenho enorme admiração pelo gênero, que é talvez mais elevado que o romance, por conta da síntese comenta Beatriz. Ao trabalhá-lo, descobri que são duas coisas completamente diferentes: o conto não é a síntese do romance, nem o romance o desenvolvimento do conto. São tão diferentes quanto o romance é diferente da poesia, quanto o teatro é diferente do conto. Foi um desafio, pois senti que tinha de criar outros instrumentos, como fazer da própria linguagem um personagem mais ativo do que é no romance.

Matar ou morrer

Tratar a violência na ficção tem sido uma marca da literatura brasileira contemporânea. Mas Beatriz que aborda o tema em pelo menos sete narrativas de Meu amor afirma que não procura a violência. Ela se impõe:

É só olhar em volta e ver o que acontece hoje no Rio, São Paulo ou Belém. Me sinto como a violentada e a violentadora. E, se você é ficcionista, tem de morrer junto ou matar.

Versátil, Beatriz sabe a hora certa de driblar o mundo cão. O melhor exemplo é Comida em Parati , o relato mais literário da coletânea, com citações e referências a Haroldo de Campos, Samuel Beckett, Kenzaburo Oe, J. M. Coetzee e sua personagem Elizabeth Costello. Literatura a frio.

Há uma história curiosa em torno de Comida em Parati . Em 2005 a escritora foi convidada para a Flip e entendeu que, durante sua apresentação, deveria ler um conto inédito.

Eu estava errada. O tema da mesa era sobre a força do romance . E acabei lendo um trecho do meu livro Não falei lembra ela. Aliás, não me enganei apenas nisso, mas também em relação à Flip. Falar em publico é desagradável para mim. Sou um pouco vaga, leio em voz baixa, as pessoas falam sempre que pareço muito triste nessas ocasiões. Mas gostei de ver os outros autores falando, me surpreendi como realmente tem alguma coisa ali que não é apenas o fetiche do autor.

A maioria dos relatos de Meu amor surgiu de encomendas para jornais, revistas e antologias. Numa Nota da autora que encerra o volume, Beatriz explica as pequenas alterações e as mudanças que cada texto recebeu na edição. Há comentários do tipo: Tirei artigos que apaulistavam a história (para Zezé Sussuarana ). E outros que se limitam a: Mudei pouco . O resultado final, no entanto, permite dizer que ela mudou o bastante.