Exposição no MAM relembra o neoconcretismo
Táia Rocha, Jornal do Brasil
RIO - Menos razão, mais alma. A frase poderia ser o lema do neoconcretismo, movimento artístico que tomou o Rio no fim dos anos 50 e foi oficializado com o Manifesto neoconcreto. O texto, redigido pelo poeta Ferreira Gullar, foi assinado por diversos nomes da produção artística e publicado pelo Jornal do Brasil, no antigo Suplemento dominical, em março de 1959. Meio século depois, o Museu de Arte Moderna do Rio (MAM) inaugura a exposição Neoconcretismo 50 anos, que comemora as cinco décadas passadas da primeira exposição neoconcreta realizada no mesmo lugar. A mostra exibe 62 obras, número que não chega a se aproximar do total da primeira versão, por não haver documentação suficiente para sustentar uma reedição.
Para reconstituir a mostra, precisaríamos de muito mais documentos textuais e fotográficos do que havia à época, e, nesse sentido, documental, o Brasil ainda é muito deficiente diz Reynaldo Roels Jr., curador do museu. Chegamos a descobrir a existência de obras que nem os próprios artistas que participaram souberam reconhecer pela descrição. Foi o caso de um tal poema em vidro que um jornal noticiou, mas nenhum dos poetas participantes se lembra de ter feito ou visto.
O que se fez foi contextualizar o grupo e a respectiva produção à época, apresentando às novas gerações um dos movimentos artísticos mais relevantes do século 20 no país. Enquanto o concretismo se fundava na racionalidade, no rigor geométrico e no mecanicismo, valorizando a importância da forma em detrimento das emoções, o neoconcretismo questionou a ausência de intuição no fazer artístico.
Se os artistas paulistanos eram mais ortodoxos e não se afastavam do concretismo, para os cariocas a fórmula da racionalidade ficou saturada. Qualquer determinismo geográfico pode não ser coincidência. No entanto, o Manifesto neoconcreto não se pretendeu uma oposição ao movimento anterior a ditar novas regras para a produção artística vindoura: apenas constatou mudanças nas obras que já começavam a ser feitas.
Entre as peças artísticas presentes estão nomes como Lygia Clark, Helio Oiticica, Amílcar de Castro, Lygia Pape, Wyllis de Castro, Aluísio Carvão, Franz Weissmann, Hércules Barsotti e Décio Vieira, além de poemas de Ferreira Gullar, Reynaldo Jardim e Roberto Pontual. As pinturas, esculturas, instalações e os poemas compuseram as três grandes exposições do grupo: a primeira, em 1959, no MAM; a segunda, em 1960 em Salvador, no Ministério da Educação e Cultura; a última, em 1961, em São Paulo, no pavilhão do Parque do Ibirapuera. Em 1962 o coletivo progressivamente se desarticularia.
O que se seguiu foi um retorno à figuração, como lembra Roels:
A arte está sempre ligada ao contexto social geral, e portanto também à política. Quando o momento desenvolvimentista e progressista de Juscelino Kubitschek se afasta de seu auge começa a haver uma mudança de viés localiza o curador. Com Jango, há uma busca maior por justiça social, e a arte vai se tornar menos rígida e mais humana. Carlos Vergara, Rubens Gerchman e Roberto Magalhães são bons exemplos dessa nova geração. Mas essa já é outra história.
Em maio, o museu recebe mesas redondas sobre o tema, com convidados do naipe de Ferreira Gullar, Reynaldo Jardim e Claudio Mello e Souza, três integrantes do movimento, além de Ronaldo Brito, crítico de arte que escreveu o tratado definitivo sobre o neoconcretismo, Neoconcretismo: vértice e ruptura do projeto construtivo brasileiro, Rodolfo Caesae, que participa da mesa de música, e Reynaldo Roels Jr. Os mediadores de literatura serão Vivian Wyler e Rosana de Freitas, chefe da documentação e pesquisa do MAM.
