Paulo Halm estreia como longa-metragista em 'Histórias de amor

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Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - O desejo é antigo. Desde que ingressou na Universidade Federal Fluminense (UFF) para cursar cinema, a ideia era estar por trás das câmeras mas quis a vocação que Paulo Halm se tornasse um dos principais roteiristas de cinema da retomada.

Agora, finalmente, o carioca estreia na direção de longa-metragens com Histórias de amor duram apenas 90 minutos, previsto para exibição no Festival do Rio deste ano. A mudança da solidão da página branca para os tumultuados sets de filmagem, no entanto, não é repentina: o autor dos roteiros de filmes como Pequeno dicionário amoroso (1997) e Meu nome não é Johnny (2008) assina uma série de curtas-metragens (Retrato do artista com um 38 na mão, de 2000, e O resto é silêncio, de 2003), e finaliza também o documentário Hijab, mulheres de véu, sobre mulheres islâmicas brasileiras.

Sempre dirigi curtas e participei da produção de documentários diz Halm. Quando iniciei a faculdade de cinema na UFF, meu projeto era dirigir. Acabei me concentrando em roteiro porque, entre os processos de criação do cinema, era aquele para o qual me sentia mais apto. Sempre escrevi desde garoto e tinha até pretensões literárias. Mas, paralelamente a atividade do roteiro, não parei de dirigir: desde a época do colégio, já realizava curtas. Acho que o que faltava para me lançar na direção de longas era uma parceria, que encontrei em Heloísa Rezende (de Zuzu Angel), produtora do meu filme.

Radiografia de uma geração.

Com roteiro também de Halm, Histórias de amor duram apenas 90 minutos é, como o nome indica, uma história de amor. Caio Blat vive um escritor que não consegue terminar seu livro. Aos 30 anos, age como adolescente, sustentando-se à custa de uma herança. Casado com uma professora de arte interpretada por Maria Ribeiro (mulher do ator ambém fora da ficção), acaba se envolvendo com uma jovem argentina. Aqui, porém, o romance é pano e fundo para uma radiografia de uma certa juventude contemporânea, que ainda não consegue entrar na idade adulta.

Usei a comédia romântica como pretexto para falar dessa geração que não consegue amadurecer e fica no meio do caminho na transição para a vida adulta explica o diretor. Conheço muitas pessoas como o personagem do Caio. Indivíduos promissores, mas que não conseguem dar seguimento ao seu talento.

Para traduzir o sentimento do personagem, que se prende no mundo abstrato dos livros e da nostalgia de um tempo que não viveu, Halm optou por uma estética de envelhecimento . A história se passa no Rio, mas foge dos cartões postais, já que a maior parte das filmagens, já finalizadas, foi realizada num prédio dos anos 30, onde os protagonistas moram. A fotografia também foge da coloração tropical, num tom mais pastel. A euforia dos trópicos dá lugar a um clima melancólico, mais próximo do das ruas parisienses.

Queria dar um ar 'afrancesado', de Nouvelle vague justifica. O filme se passa nos dias atuais, mas parece década de 60.

Halm começou sua carreira no final dos anos 80, justamente num dos momentos mais delicados do cinema brasileiro, quando o governo Collor acabou com as as leis de incentivo à produção. Porém, a partir da retomada, na metade dos anos 90, se tornou um dos mais requisitados roteiristas do país.

Sempre digo que meu início foi no fim do cinema. Vivi anos difíceis, mas acabou sendo bom para mim lembra o diretor. Quando houve a retomada, eu continuava no meio, enquanto a maioria já havia debandado para a publicidade ou televisão. A verdade é que o cinema já estava em crise desde os anos 80. Hoje se comemora quando um filme brasileiro faz três milhões de entradas. Mas nos anos 70, isso era normal no Brasil. Ir ao cinema está muito caro no no país hoje.

Fundador e diretor da Autores de Cinema, entidade que organiza os roteiristas no Brasil, Halm começa, a partir de amanhã, o curso Cinema no papel: o roteiro e a escrita de um filme, no Polo de Pensamento Contemporâneo, no Jardim Botânico, no qual reproduzirá, em sala de aula, o ambiente de criação de um roteiro de cinema.

- Gosto destes cursos porque é a oportunidade de conhecer novos talentos avalia. Por incrível que pareça, há gente querendo se lançar nessa parte de criação. Mas o curso também serve para tirar algumas ilusões: vou logo dizendo que não há nenhum glamour na profissão. Pelo contrário. É preciso ser um pouco masoquista para virar roteirista.

Para o cineasta, é preciso desfazer o engano de que roteiro e literatura são uma coisa só.

- Roteiro é subliteratura, sua função é fazer parte de um filme. Não basta escrever bem, é preciso dominar as técnicas do cinema. Roteirista é cineasta, não uma pessoa de letras.