Especialista analisa importância da obra crítica de Mário Faustino

Por

Manoel Ricardo de Lima, Jornal do Brasil

RIO - Uma ideia para uma crítica do presente tem a ver, diretamente, com a perspectiva empenhada para um fora da história, alguma coisa próxima de uma a-história ou de um anacronismo; uma espécie de alargamento ou disposição que possa ler melhor a história, para que se possa sair do projeto montado sob a rigidez das hierarquias, dos historicismos, das categorizações e, principalmente, da crítica-cópia-mal-feita-colada-a-alguém.

E se esta tarefa crítica passa por uma leitura (ou releitura) da poesia no Brasil é sempre importante recuperar a dança do traço incerto, generoso e aberto da crítica de Mário Faustino (1930-1962) na sua prática agarrada, como compromisso, ao texto para jornal. Jornal que não é, senão, também, para ele, um espaço de impasse, euforia e pouco tempo.

Durante os anos de 1956 a 1959, Mário Faustino se dedicou a uma página no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, chamada Poesia-Experiência. Nela, armou um arquivo que, sobremaneira, aponta para um outro lugar da coleção: deslocar o seu uso. Numa ideia mais que original retirada do barroco na arte brasileira: O movimento livre em lugar do equilíbrio fixo .

A importância dessa página está ligada a um projeto de Reynaldo Jardim que reuniu naquela década uma turma interessantíssima para mudar os rumos do suplemento e das maneiras que se praticava, até então, talvez, a crítica cultural de jornal no Brasil.

A página Poesia-Experiência se dividia em seções marcadas, que iam da Poeta Novo , para apresentar os novos poetas junto a poetas conhecidos, até a Personae , , para dar notícia das novidades poéticas entre publicações, autores etc de então, e ainda O melhor em português , Clássicos vivos , Fontes e correntes da poesia contemporânea , É preciso conhecer e Evolução da poesia brasileira .

O eixo de apresentação da coluna obedecia a uma forma didática e a um caráter quase instrumental de uma leitura crítica de muito da poesia moderna do Ocidente, cumprindo um gesto judicativo e, ao mesmo tempo, tentando abrir este gesto para um movimento progressivo muito colado a um princípio do conceito de evolução.

Era uma maneira de apresentar, para um público leitor de jornal, um público feito por leitores comuns (ou seja, leitores não-especializados), uma mimese interna da literatura com apropriação e seleção de poetas e poemas num arquivo autoritário ao qual procurava atribuir uma variação de graus de importância. O arquivo é ordenado a partir e com algumas das premissas básicas das vanguardas críticas do século 20, premissas também retiradas de algumas de suas preferências poético-críticas, como Erza Pound e T.S. Eliot e o new criticism; e, no Brasil, Jorge de Lima (poeta que mereceu notória atenção de Faustino nesses anos).

Nesse sentido, Faustino ampliava e aplicava no Brasil, talvez pela primeira vez, a ideia do poeta americano Ezra Pound de fazer o novo (tão cara às vanguardas e, depois, à poesia concreta, por exemplo). Pound chama a essa ideia, esse procedimento, de make it new, uma proposição que tem a ver com fazer a própria seleção, com escolher, com ponto de partida, com repetição, com renovação e inovação; e este procedimento passa a ser a pauta de Faustino. Tanto que o lema da página era: Repetir para aprender, criar para renovar .

Na parte intitulada Evolução da poesia brasileira , procura reler a poesia do Brasil colônia, como a de Bento Teixeira, de Antônio José da Silva e de Souza Caldas, entre outros, para provocar nela um encontro com o presente, um encontro do presente com um documento humano , progresso e retorno como ondulação e ciclo. Ao comentar sobre Souza Caldas argumenta a recuperação da poesia como um esforço, o de dar à língua uma nova dimensão, seja em que sentido for eis o que marca, antes de mais, a importância de um poeta .

E mais adiante, volta a afirmar uma de suas inferências mais fortes acerca da poesia no Brasil, que ela só teria cotejo com qualquer outra poesia do Ocidente a partir do modernismo: Pois, nunca é demais repetir, a poesia brasileira com duas ou três exceções só atinge o nível internacional já em pleno século 20 . Ainda no mesmo trecho, chama atenção para a importância da tradução como tarefa crítica e poética, ao dizer que é preciso deixar bem claro que pouquíssimas obras poéticas contemporâneas de Souza Caldas representam para a língua o que significam suas traduções (diretamente do hebraico) de inúmeros salmos da Bíblia .

Fácil notar que a tarefa crítica de Mário Faustino vem de sua tarefa como poeta, e não à toa seu livro de poemas tem como título O homem e sua hora, que tem como insistência fazer o fragmento se mover para construir o poema longo; que tem como insistência ir e vir, algo como corso e ricorso, numa indicação de Vico para entrar e sair da história; que tem como insistência o presente, o tempo agora. Um trecho de um poema de Faustino, de seus primeiros poemas, pode indicar um pouco deste procedimento cruzado. O poema que aparece datado de 1952, intitulado No trem, pelo deserto , diz: Alguém pergunta: 'Estamos perto?' E estamos longe/ E nem rastro de chuva. E nada pode/ Salvar a tarde. //(Só se um milagre, um touro/ Surgisse dentre os trilhos para enfrentar a fera/ Se algo fértil enorme aqui brotasse/ Se liberto quem dorme se acordasse) . Este apontamento que aparece no poema é o seu plano de reconstrução, fica ao meu lado, (...), agora , de um arquivo em plena desincorporação e dessubjetivação.

Faustino fez uso recorrente de um procedimento a-histórico ao recortar trechos de textos críticos, de poemas, tanto em português como em outras línguas, e colocá-los dispostos na página seguindo a medida de seus interesses e intenções de procedimento: uma montagem aberta. Assim, essa página, Poesia-Experiência, pode e deve ser lida agora nessa clave já sugerida por ele, que está armada com uma proposição crítica para a desincorporação literária, com uma política de leitura para uma dessubjetivação do arquivo. Com uma leitura do presente que pode sempre dizer de um arquivo por vir, um arquivo que tem como proposta uma outra política da memória, esta memória do presente, agora.

E por fim, importante dizer que parte desta Poesia-Experiência de Mário Faustino já está parcialmente organizada em livro, ou por Benedito Nunes ou por Maria Eugênia Boaventura, assim como a sua poesia e algo de sua biografia; e que também há dois trabalhos importantes mais recentes, um de Carlos Evandro Martins Eulálio, Mário Faustino em curso, editado no Piauí pela editora Corisco, e outro de Lília Silvestre Chaves, Mário Faustino, uma biografia, editado pelo IAP, do Pará.