Julia Lemmertz e Clarice Niskier duelam no palco, em 'Maria Stuart'

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Macksen Luiz, JB Online

RIO - Para além do drama histórico, em que duas rainhas se defrontam no exercício do poder (encarcerado) e da liberdade (inatingível), emergem duas mulheres de origem e credos diferentes que não são apenas engenhos de sua retórica existencial, mas vítimas das razões de estado. A católica Maria Stuart, rainha da Escócia, e a protestante Elizabeth, soberana inglesa, enredam-se em disputa pela legitimidade de seus atos, que envolvem intrigas e crises de consciência no desvendamento do caráter de sua humanidade. Se uma delas perde a liberdade por conspirar, a outra hesita em a aniquilar, e deste modo as motivações de ambas desaguam numa mesma complexidade vivencial. O desejo da condenação é imperioso, ainda que seja vacilante a tomada de decisão. A afirmação da culpa, penalizada pela morte, atinge a realeza de direito, mas acomoda se na transcendência religiosa. É através deste confronto que Friedrich Schiller dimensionou poética e teatralmente personagens históricos em Maria Stuart, que na direção de Antonio Gilberto, está em cena no Teatro 1 do CCBB.

A tradução de Manuel Bandeira, excelente em seu classicismo , encontra sonoridade que acolhe em nosso idioma a cadência da palavra poética até o ponto de torná-la fluente. O diretor também procurou a correspondência entre o clássico e o ritmo cênico compassado. Adotando tom menos hierático no tratamento que os encenadores contemporâneos impõem a textos como Maria Stuart, Antonio Gilberto optou por linha, ainda que despojada, aquecida pela intensidade da palavra. Como a ação é narrada, a movimentação fica contida pelo duelo verbal permanente, com a voz ressaltada como veículo expressivo básico.

A formalização um tanto estática da montagem, com as cenas se armando e desarmando com alguma fixidez no seu encadeamento, não compromete a densidade da narrativa. A cenografia de Helio Eichbauer, tão essencialista quanto a ambientação emocional, utiliza poucos elementos, contrastando a crueza da madeira com o piso vermelho-sangue e o fundo negro. Os figurinos de Marcelo Pies são desconcertantes no seu cromatismo e na sua desestruturação. A iluminação de Tomás Ribas, afinada com a limpeza geral, se transforma em elemento decisivo no segundo ato.

A cena final, com apenas os rostos das atrizes no palco conclui, lindamente, o espetáculo. A trilha de Marcos Ribas de Faria intervém com oportunidade. O elenco, com variantes, mantém-se num padrão interpretativo regular. Amelia Bittencourt, Clemente Viscaino e Henrique Pagnocelli sobressaem por timbres de voz assinaláveis. Ednei Giovenazzi cumpre a decisiva intervenção mística do personagem. André Corrêa não incorpora a dubiedade do conde Leicester. Mario Borges tem boa presença. Pedro Osório é menos eficiente como Davison. Renato Linhares se mostra algo hesitante. Maurício Souza Lima, Sílvio Kaviski, Thiago Hausen completam o elenco. Guilherme Bernardy, Mauricio Silveira fazem apenas participações. Mas é sobre as atrizes que interpretam Maria (Julia Lemmertz) e Elizabeth (Clarice Niskier) que se concentra o duelo dramático.

Clarice Niskier equilibra a sua atuação sobre alternâncias emocionais e dúvidas que assolam a realeza em conflito. Os momentos em que a atriz detalha os sentimentos de Elizabeth, com miniatura de gestos e máscara facial amenizada, ampliam o seu registro interpretativo. Julia Lemmertz projeta maior unidade na apropriação da personagem, que a atriz deixa visível na integridade de sua complexidade, na manipulação da culpabilidade e na persistência em defender o direito da rainha e da mulher.