Diretor fala sobre cenas de sexo entre Kate Winslet e ator de 15 anos
Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil
BERLIM - Quando garoto, o diretor britânico Stephen Daldry estudou alemão em Hamburgo. Adulto, passou várias temporadas em Berlim, à frente da direção artística do Royal Court Theater. O longo contato com a cultura germânica lhe dá autoridade para realizar O leitor, adaptação para o cinema do best-seller homônimo de Bernhard Schlink sobre o sentimento de culpa alemão em relação à Segunda Guerra. Exibido na seleção oficial (como hors-concours) do 59º Festival de Berlim, o filme chegou sexta-feira ao circuito brasileiro amparado por cinco indicações para o Oscar, incluindo as de Melhor Filme, Direção e Atriz (Kate Winslet).
A Alemanha é um país que conheço particularmente bem. Todas as contradições daquela sociedade há anos mexem comigo. Portanto, não me sinto um estrangeiro fazendo um filme sobre o impacto do nazismo na consciência das gerações do pós-guerra explica o autor de Billy Elliot (2000) e As horas (2002), em entrevista ao Jornal do Brasil numa das suítes do hotel Adlon, um dos endereços mais tradicionais e luxuosos da cidade.
Mas, ao contrário da maioria dos outros filmes sobre o tema, nossa história é centrada nos responsáveis do Terceiro Reich, e não em suas vítimas.
O leitor intercala narrativas de diferentes décadas que, inevitavelmente, acabam ligadas ao período em que Hanna (Kate), austera e madura trocadora de bonde, manteve um romance com Michel (David Kross), introvertido estudante de 15 anos, no fim da década de 50. A relação entre os dois é baseada numa intensa vida sexual antecedida por leitura de clássicos, atividade encorajada por ela. Depois de um verão juntos, Hanna desaparece da vida do amante. Os dois só voltam a se cruzar oito anos mais tarde, quando Michael, então estudante de direito, descobre Hanna como ré de um tribunal de crimes de guerra.
Ignorante, literalmente, da dimensão dos crimes cometidos no passado, Hanna ainda provoca sentimentos contraditórios em Michael, que o perseguirão por toda a vida adulta, em fase interpretada pelo ator Ralph Fiennes. Lançado em 1995, o livro explora as dificuldades de ambas gerações para absorver suas responsabilidades na guerra.
O que sabemos sobre Hanna nos é mostrado pelos olhos de Michael, cuja vida ficou marcada pela paixão por ela observa Daldry, que concorre pela terceira vez ao Oscar como diretor. A compreensão dele sobre a participação de Hanna nas atrocidades cometidas no passado é comprometida pela ligação que um dia compartilharam. Essa dificuldade é dividida com o público. Meu dever, como diretor, era fazer com que o intento de Schlink, autor do livro, passasse para o filme
Embora envolvam grandes doses de nudez, os (muitos) encontros amorosos entre Hanna e Michael são explorados com delicadeza por Daldry. Aparentemente, o fato de permanecer em cena sem roupas por muito tempo não foi uma experiência traumática para Kate, jovem mãe de 33 anos e mulher do diretor Sam Mendes. A estrela de Titanic (1997), que já ganhou o Globo de Ouro de Atriz Coadjuvante pela personagem, encarou a tarefa com a naturalidade que o papel exigia. Diferentemente de Daldry, ela prefere ver O leitor sob a perspectiva romântica da trama.
No meu entender, é uma história de amor que tem um impacto forte sobre seus protagonistas. E, sob este prisma, as cenas de sexo entre Hanna e Michael são parte muito importante dessa história de amor observou Kate durante a concorrida coletiva de imprensa do filme. Tenho que dizer, no entanto, que fazer esse tipo de cena nunca é fácil. Não é algo que um ator possa gostar em particular. Mas, às vezes, faz parte do nosso trabalho, apenas vamos em frente com ele.
Embora Kate sempre tenha sido a primeira opção do produtor de Anthony Minghella produtor do longa e dono dos direitos de adaptação do livro, morto em março do ano passado e do diretor, o papel de Hanna por um breve tempo esteve nas mãos de Nicole Kidman. A ex-mulher de Tom Cruise trabalhou com Daldry em As horas (2003), filme com o qual a atriz ganhou seu primeiro Oscar.
Ao convidarmos Kate pela primeira vez, ela tinha outro compromisso. Nos voltamos para Nicole, mas, quando o projeto entrou em pré-produção, ela ficou grávida. Então nos concentramos em Kate novamente. Cada vez que o protagonista de um filme muda, a abordagem sobre o personagem se altera frisa o diretor, que, depois de muitos testes, encontrou em David Kross, hoje com 18 anos, o parceiro ideal para a atriz em cena. Estávamos à procura de um jovem que pudesse aparentar maturidade aos 15 anos. David tinha essa qualidade.
Mais experiente, Kate deixou transparecer cuidado maternal com o rapaz no set, particularmente nas cenas mais íntimas.
O mais importante foi fazer com que David entendesse exatamente o que aconteceria dentro do estúdio nas cenas de amor esclareceu a atriz. Já estive na posição de David no passado, sem saber como as tomadas aconteceriam ou quantas pessoas estariam no set enquanto filmávamos.
