'Cidadezinhas' reforça prosa flaubertiana de John Updike
André de Leones*, JB Online
RIO - O escritor John Updike [morto na última terça-feira, aos 76 anos] é alguém que parece ter lido Flaubert e Balzac com um pouco mais de atenção do que muitos autores por aí. Em Flaubert, ele buscou a sofisticação narrativa que às vezes beira o preciosismo. Em Balzac, a ideia de compactar um mundo, ou a ideia de um mundo, e seus habitantes. Essas duas características estão presentes no excelente romance Cidadezinhas, publicado há pouco pela Companhia das Letras.
Em seus momentos mais interessantes, a prosa de Updike faz uma descrição primorosa da vida suburbana americana. Assim como há a costa leste e os judeus para Philip Roth, temos o nordeste, a América Wasp (sigla, em inglês, para brancos, anglo-saxônicos e protestantes ) e seus habitantes para Updike.
A série de romances com o personagem Coelho continua trazendo os melhores momentos desse autor bastante irregular, capaz de criar livros estupendos como Coelho corre e bobagens como Brazil. Pode-se dizer que Cidadezinhas está situado em um meio-termo: não é tão extraordinário quanto a tetralogia com o Coelho, mas tampouco é constrangedor como, por exemplo, Gertrudes e Claudio.
O romance Cidadezinhas traz a prosa flaubertiana (subflaubertiana, para alguns) que consagrou Updike. Para discorrer sobre as personalidades dos vizinhos do protagonista, por exemplo, o autor trata de descrever as maneiras como dão suas tacadas quando jogam golfe, e isso basta. Owen Mackenzie, o protagonista, é um programador aposentado. O romance, narrado em terceira pessoa, vive do cotidiano de Owen e também de sua vida pregressa, especialmente no que diz respeito aos seus envolvimentos amorosos e sexuais de outrora. Mas não é apenas isso, evidentemente.
Lançado nos EUA em 2004, Cidadezinhas traz observações bastante pontuais acerca daquele (e de vários outros) período(s) histórico(s). Ironias para com Bush II não faltam (a melhor delas por conta da sigla NMQN, e não se pode dizer aqui o que ela significa porque falta espaço e, claro, perderia toda a graça).
Mas é claro que estamos falando de Updike, com sua prosa às vezes um tanto solene e carregada. E até mesmo isso deixa o livro mais interessante, especialmente quando descreve, com ironia e discrição, o cotidiano das cidadezinhas nas quais se passa a história. Por outro lado, o romance pode ser lido como uma espécie de educação sentimental (ou sexual) de Owen Mackenzie , na medida em que seus envolvimentos sexuais são passados em revista.
O melhor, contudo está mesmo na contextualização histórica paralela ou mesmo intrínseca à narrativa. Updike explora ou explicita a alienação política de certa parcela dos americanos nos primeiros anos da presente década com humor perturbador. Seria o caso, talvez, de ler Cidadezinhas em sequência ao estupendo Fantasma sai de cena, de Philip Roth, até para que o leitor possa comparar, prazerosamente, o estilo desbragado de Roth com a fleuma flaubertiana de Updike. No fim das contas, em seus respectivos livros, esses que são dois dos melhores autores atuais tratam desde temas prementes (os EUA indo para o brejo graças a Bush II) até coisas como a velhice a comê-los por dentro e por fora, e ambos fazem isso de maneiras brilhantes.
* É autor de Hoje está um dia morto (romance) e Paz na terra entre os monstros (contos), ambos lançados pela Record.
