Marília Pêra exercita seu virtuosismo em 'Gloriosa'
Macksen Luiz, JB Online
RIO - A história real de Florence Foster Jenkins tem a peculiaridade de demonstrar como a excentricidade de uma milionária, que se supunha cantora e fazia bizarras apresentações, a expunha ao ridículo de sua própria veleidade. Como presidente de associações femininas e com o dinheiro que dispunha, comprava não só a platéia, mas também as amenidades que oferecia ao público (a garrafa de jerez com seu rosto estampado era de praxe) e toda a produção do espetáculo.
É desta personagem curiosa de que trata a comédia musical Gloriosa, de Peter Quilter, que inaugura o confortável Teatro do Fashion Mall. A desastrada voz de Florence, que assassinava qualquer repertório e era acompanhada por figurinos e gesticulação tão dissonantes quanto a sua pretensão, se transformaria em objeto de culto numa Nova York vivendo os ecos da Segunda Guerra Mundial.
O ápice e o final da carreira nada ortodoxa da cantora viriam com o convite que recebeu para um recital no templo do Carnegie Hall, onde mais uma vez se empresariou, recebeu as chacotas de sempre e os aplausos dos curtidores fiéis, na celebração definitiva de sua inquebrantável incompetência vocal.
O modo como Florence criou um universo paralelo para abrigar a sua ensombrada consciência da falta de talento é visto pelo autor como apenas um detalhe em meio aos flagrantes de sua obsessão por cantar. O pianista que a seguiu até a morte é o narrador e, ao mesmo tempo, quem repõe a realidade em contraponto aos delírios vocacionais de Florence.
Mas o que se acentua no texto é o comportamento da personagem visto em seu aspecto mais externo, naquilo que alguém com tais atitudes seria capaz de demonstrar. Ainda que o desenho tenha traços sublinhados pelo esboço, o autor, pelo menos, não tentou especular sobre as razões para tais comportamentos ou atribuir explicações. Apenas expõe uma história verídica.
A dupla Charles Möeller e Claudio Botelho se identifica com o mundo do musical estabelecendo com a montagem aproximação com a época e o clima do show business nova-iorquino, já que não há muito mais a extrair desta comédia do que sua escrita propõe.
Com seus diálogos articulados com o humor, exigência de uma atriz de forte presença e instrumentos técnicos afiados, especialmente vocais, e com clima entre o nostálgico e o efusivo, o espetáculo corre macio sobre esses trilhos. Os diretores utilizaram bem os elementos de que dispunham e fazem com que a montagem evolua sem maiores percalços, superando as dificuldades de mudanças de cenários com projeções e trilha saborosa.
O cenário de Rogério Falcão com estrutura que possibilita variações de ambientes não tem a agilidade que possa acelerar as necessárias modificações. Os figurinos de Kalma Murtinho se valorizam, não só pela sua exuberância e detalhismo de confecção, como pelo teatralismo dos efeitos. A luz de Paulo César Medeiros confere um ar de espetacularidade à cena. Eduardo Galvão, como o pianista Cosme McMoon, demonstra elegância e discrição que se ajustam ao papel do narrador. Guida Viana, em três personagens, tira o melhor partido de cada um delas. Seja como a empregada mexicana, com seu sotaque e língua destravada, como a amiga de Florence ou como a amante de música indignada com o fiasco da "diva", a atriz é sempre divertida.
Ave Maria irretocável
Marília Pêra exercita, uma vez mais, a extensão de seu virtuosismo como intérprete. Adotando uma linha de comédia, que remete à tradição dos atores populares, depurando com meios sofisticados o humor mais sutil, dominando com segurança as possibilidades da voz, e atuando com a vitalidade da sua maturidade de atriz, Marília Pêra oferece um grande prazer de assisti-la. Quando Florence volta ao palco para finalmente soltar a voz aprisionada dentro de si, Marília Pêra excede no golpe de teatro que este finale representa, com interpretação límpida e irretocável de Ave Maria, de Bach/Gounod.
