Ensaios discutem o caráter experimental da leitura

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Giovana Cordeiro Campos*, JB Online

RIO - Como pensar a leitura? Ao buscarmos responder a essa pergunta, somos tentados a elucidar o que vem a ser ler. Dentre as muitas definições para o verbo, é possível encontrar reconhecer, perceber, sentir . Para aqueles que têm na leitura um hábito, tais acepções parecem sugerir um sentido para a leitura que vai muito além do simples ato de percorrer um texto com os olhos. Por intermédio do texto literário, o leitor tem a possibilidade de encontrar-se consigo mesmo, consciente ou inconscientemente, por meio da descoberta do outro.

No ensaio escrito para Leitura e experiência: teoria, crítica, relato (Org.: Evando Nascimento e Maria Clara Castellões de Oliveira,

Annablume, 270 páginas, R$ 35), Eliana Yunes sustenta que os muitos modos de ler conduzem a uma consideração reflexiva de nós mesmos e do mundo, à percepção do desentendimento das coisas e dos homens que, se não nos conforta pela identificação, estimula-nos à alteração .

Sob esse prisma, ler é mais do que ato; ler é movimento, é gesto de reconhecimento (e desconhecimento), de ponderação, de percepção de si e do outro e, portanto, torna-se uma experiência única: daquele sujeito, daquele tempo, daquele lugar. O sujeito-leitor lê, reflete, sente; enfim, experimenta.

O livro mencionado no parágrafo anterior, organizado por Evando Nascimento e Maria Clara Castellões de Oliveira e recentemente lançado pela editora Annablume, em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da Universidade Federal de Juiz de Fora, apresenta 16 ensaios que dão testemunhos variados sobre o caráter experiencial da leitura.

A palavra experiência contida no título é entendida em sua dupla face: Tanto aquilo que se submete de modo relativamente passivo, quanto aquilo que se intenta como ampliação do horizonte de partida , para tomar as palavras dos organizadores. Desse modo, são apresentadas múltiplas perspectivas de leituras, norteadas pela mais diversas correntes teórico-críticas. Daí o subtítulo apropriado: teoria, crítica, relato.

A leitura do livro revela-se uma profícua e prazerosa jornada por uma pluralidade de autores e instrumentais de leitura. O artigo de Evando Nascimento, por exemplo, apresenta uma discussão sobre a maneira pela qual a idéia de América Latina é articulada. Com base em ensaios de Silviano Santiago e Walter Mignolo, entre outros, Nascimento faz uma leitura da complexidade envolvida na aplicação de conceitos como os de América Latina e latinidade, os quais são freqüentemente tomados como válidos em si mesmos quando, em uma análise mais profunda, revelam-se construtos históricos, cujo valor operatório deve ser questionado. Segundo Nascimento, o gentílico latino-americano é uma identidade fictícia, forjada como estratégia política , o que tem consequências no campo da literatura.

Maria Clara Castellões de Oliveira, por sua vez, analisa o texto My apology , de Woody Allen, sob a perspectiva da ética da diferença, discutindo a maneira pela qual o autor aborda as tradições que operam sobre seu contexto. No referido texto, Woody Allen, escritor e cineasta de origem judaica, apresenta sua postura frente à filosofia grega e à hermenêutica rabínica. Segundo Oliveira, não há a opção de privilegiar uma ou outra, mas uma superposição de vozes Platão/Sócrates e Woody (autor)/Allen (personagem) que demonstra a tentativa do autor do texto dramático de encontrar um local de enunciação no meio das diversas tradições que operam sobre seu contexto .

Eliana Yunes, no ensaio Tchibum e pirlimpimpim , já citado, faz um exame da experiência da leitura apresentando suas memórias de leitora , as quais têm início no mundo de imaginação construído pelos livros de Monteiro Lobato. A partir das sugestões de leitura do referido autor (o qual, entre outras coisas, permitia que seus personagens e com eles os leitores se deslocassem no espaço, podendo encontrar Simbad, Ali Babá e muitas outras personagens), a leitora Eliana foi construindo sua própria narrativa sobre o mundo, a qual viria posteriormente acolher obras de Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Luis Borges, Guimarães Rosa, entre outros. Segundo Yunes, foi pela experiência da leitura, muito antes que pudesse entender de políticas e ideologias, que começou a perceber semelhanças e diferenças de ponto de vista, e que interesses aproximavam ou afastavam as pessoas .

Os percursos teórico-metodológicos abordados no livro também são os mais variados, abrangendo desde o pensamento francês, com remissões a Roland Barthes, Jacques Derrida, Gilles Deleuze e Michel Foucault, até discussões advindas do contexto alemão, como as reflexões de Walter Benjamin e a estética da recepção de Wolfgang Iser e Hans Robert Jauss. Estudiosos brasileiros também são citados, como Luiz Costa Lima e Silviano Santiago, sendo que, no que tange ao último, tanto sua postura teórica quanto a construção de sua escrita literária são discutidos. Reverberações de críticos como Jorge Luis Borges, Ricardo Piglia, Umberto Eco e Haroldo Bloom, entre outros, também se fazem presentes.

Cuidadosamente desenvolvidos por profissionais do campo dos estudos literários como Evelina Hoisel, Idelber Avelar, João Cezar de Castro Rocha, Lawrence Flores Pereira e Maria Antonieta Jordão Oliveira Borba, para citar alguns os ensaios revelam-se mais do que uma reflexão a respeito da leitura fazem-se uma aula de escrita. Ao mesmo tempo, demonstram como teoria e prática estão associadas, uma vez que as abordagens teóricas estão ilustradas pelas experiências de leitura de cada autor. Assim, Leitura e experiência interessa não somente aos pesquisadores e professores da área, mas também àqueles que estão iniciando sua caminhada pelo estudo da literatura.

* Tradutora, mestre em teoria da literatura pela UFJF, mestre em literatura brasileira pelo CES/JF e doutoranda em estudos da linguagem pela PUC-Rio.