Livro destaca visão crítica corrosiva de José Paulo Paes
Felipe Fortuna, colunista, JB Online
RIO - O bom José Paulo Paes (1926-1998): ex-comunista de molde stalinista, incapaz de seguir adiante quando o vício da política pudesse ferir a dignidade da pessoa e os pressupostos da criação artística; o poeta, crítico e tradutor que deixou a militância, embora sem abdicar do sonho igualitário . No livro Anatomias (1967), os curtos poemas Epitáfio para um banqueiro e A Maiakóvski bem demonstram tanto a corrosão quanto a intensidade da sua visão crítica. Houvesse mais escritores como ele no Brasil, a combinar qualidades tão variadas e complexas, de imediato o nível de exigência estética deveria elevar-se, afastando-se da embromação, da cumplicidade e do tribalismo que se reproduzem em nosso terreno literário. Lúcido e participante, José Paulo Paes reclama, em pelo menos dois ensaios, da desolação que enxerga: pouco sobrou da imprensa literária brasileira, aquela mesma na qual, para satisfação do leitor, o escritor sempre atuou, esforçando-se para manter um alto patamar de informação e análise.
Em Armazém literário (Companhia das Letras, 369 páginas, R$ 47), Vilma Arêas reapresenta o escritor paulista, ao selecionar 23 ensaios que se encontram em sete livros de Paes, desde Mistério em casa (1961) ao póstumo O lugar do outro (1999). No prefácio à antologia, ela menciona o entrelugar que o ensaísta ocupou, sem vínculo com a universidade e sem especialização. Homem de letras em seu sentido mais amplo, o autor de Os perigos da poesia (1997) escreveu artigos com o instrumental do ensaio analítico, mas também se permitiu tratar de assuntos não-literários e muitos de circunstância. Apesar dos dilemas para a escolha dos ensaios mais representativos, a organização do volume foi bem-sucedida: Vilma Arêas deu preferência aos textos mais longos e majoritariamente centrados em literatura brasileira. Pode-se talvez perder de vista o resenhista chamado a se pronunciar sobre um lançamento, porém, em troca, surge o ensaísta duradouro.
Há uma demonstração humilde do saber em José Paulo Paes, notável não apenas no escasso recurso ao material teórico, mas também, e como conseqüência, na menção às fontes consultadas. No ensaio perspicaz sobre Memorial de Aires (1908), por exemplo, a conceituação sobre ironia se fundamenta num verbete do Dictionary of world literary terms, organizado por Joseph T. Shipley; quando se refere ao libreto de Fidelio (1805), o resumo da ópera surge a partir de The Oxford companion to music, na antiga edição de Peter A. Scholes, embora o escritor assuma não ter conseguido cópia do estudo de Raymond S. Sayers sobre a música na obra de Machado de Assis. Assim, o que existe de seguramente magistral no estudo de José Paulo Paes é a observação sobre a presença da alusão truncada naquele romance, bem como de um estado de espírito dúplice do velho diplomata, que alterna o sentimento da morte próxima com o interesse pela vida que foge. Por fim, o ensaísta recorda que o episódio da Abolição também indica, na narrativa, um sinal histórico da separação definitiva entre o velho e o novo .
Vilma Arêas acerta ao considerar que Gregos & baianos (1985) é a mais bem-sucedida reunião de ensaios do escritor. No livro se encontra Aprendiz de morto , a mencionada análise sobre o último romance de Machado de Assis, bem como O art nouveau na literatura brasileira e o excepcional Sobre as ilustrações d'O Ateneu . Esses ensaios e ainda O pobre diabo do romance brasileiro , também presente em Armazém literário, mas publicado originalmente em A aventura literária (1990) constituem o núcleo duro do ensaísmo de Paes, no qual este demonstrou originalidade e, tanto quanto possível em autor de confessada ponderação, propostas ousadas para reavaliação de escritores. A partir da abrangência do termo art nouveau, considerado também como uma ética e um comportamento, o ensaísta elege João do Rio como o maior representante daquele estilo, que repercute na obra a um só tempo ornamentada e mundana e, sobretudo, na vida do escritor nas vestes, nos hábitos, nos maneirismos. Ao final da sua convincente articulação entre aspectos da sociedade belle époque e uma literatura de alusões sexuais mais ou menos libertárias, José Paulo Paes anuncia o mais artenovista dos nossos poetas : Augusto dos Anjos, que assim ganha nova perspectiva para interpretação.
Deve-se lamentar a ausência, na coletânea, de autores contemporâneos: além do contista Dalton Trevisan, rememorado, mas não analisado em O amigo dos bilhetes , apenas Glauco Mattoso tem sua poesia examinada. O ensaísta reconhece que o autor de Rockabillyrics (1989) está longe de compartilhar a desorientação e desinformação dos poetas marginais da década de 70. Mas, com Erudito em grafito , reduz o poeta à sua sistemática inflexão satírica , sem acusar outra dimensão que tenha ultrapassado os da sua geração poderia citar o virtuosismo do metro, a refinada intertextualidade, o erotismo nunca idealizado. Nem sempre José Paulo Paes pretende esgotar o tema ou o autor que estuda: em algumas passagens, deixa apenas indicado os estudos que poderia ter feito, como se fazendo um convite ao leitor. É o caso, em Uma microscopia do monstruoso , das pulsões mítico-religiosas de Augusto dos Anjos, que não merecem maiores reparos do ensaísta que chamou a atenção. Ou então, em O escritor que fugia de si mesmo , uma interpretação possivelmente simplista das oscilações de Monteiro Lobato como editor e como escritor.
A antologia preparada por Vilma Arêas cumpre esplendidamente a sua função: demonstra que José Paulo Paes é um analista relevante, sobretudo no tocante à análise das letras nacionais. O armazém literário exibe, como deve, os melhores produtos, e subitamente o leitor depara não apenas um estabelecimento de primeira ordem, mas também uma casa arrumada, graças à inteligente seleção.
