Ensaio de Claude Lévi-Strauss analisa o natal como rito de iniciação
Alexandre Werneck, JB Online
RIO - Assim como o menino Jesus, o natal teve que nascer. E é bem mais jovem que seu personagem principal. Mas desmontar a festa de dezembro em suas dimensões rituais é apenas um pressuposto, um ponto de partida, para o tratamento que Claude Lévi-Strauss, o mais importante antropólogo vivo, que acaba de chegar a seu centenário cercado de homenagens, lhe dedica. O suplício do Papai Noel, livrinho (apenas nas dimensões franciscanas de suas 47 páginas) que a CosacNaify está lançando por ironia filosófica ou correto senso de oportunidade nesta estação natalina é muito mais do que um descortinar antropológico estrutural de uma festa cujas raízes parecem tão arraigadas no mundo ocidental sobretudo em sua raiz eurocêntrica que a origem se perde no mito. Sim, há uma certa quantidade de historiografia e de genealogia do mito no texto. Mas o que é mais forte ali não é o que aparece verticalmente de uma escavação nas profundezas. Não, é justamente o que está insuspeitado na superfície que Lévi-Strauss traça seu olhar: é não nas relações entre os que são festejados, mas nas entre os que festejam.
A estrutura, antes do estrutural: o pequenino ensaio de Lévi-Strauss foi escrito e publicado em 1952, na revista acadêmica francesa Les Temps Modernes. Chegou a ter uma primeira versão em português publicada ainda naquele mesmo ano na heróica revista Anhembi, criada pelo jornalista e livre pensador paulistano Paulo Duarte em 1950 e mantida até 1962 , e uma republicação em 2003, na revista Alceu (do Departamento de Comunicação da PUC-Rio), ambas com o título mais literal O Papai Noel supliciado . Versão que talvez aponte para a dimensão mais gritante do texto do antropólogo: a presença forte do suplício no sentido em que Foucault trataria anos depois , ou seja, da exibição pública do sofrimento: o ensaio começa com o sacrifício expiatório do Papai Noel, em uma pira flamejante, a 24 de dezembro de 1951, promovido por (ou pelo menos diante de) crianças de orfanatos de Dijon. Essa crucificação do Bom Velhinho tem uma carga simbólica óbvia e é, no mínimo, irônica, considerando a relação entre a representação de São Nicolau e aquele para cujo aniversário ele serve de mestre de cerimônias .
A edição de agora, da CosacNaify, com nova tradução, bem cuidada, de Denise Bottman, e com um projeto gráfico (de Elaine Ramos) que ajuda a transformar o livro em evento apontando para sua dimensão estruturalista ao pintar de vermelho cada um e todos os sinais de pontuação do texto, destacando, simbólica, mas também sintagmaticamente, cada pausa leva o texto para fora do círculo estritamente acadêmico, onde tem estado mais ou menos disponível, permitindo que ele tenha uma vida sem o estigma com que o adjetivo intelectual costuma cegar leitores.
Os participantes, então: adultos e crianças. Uma definição interessante que se pode fazer para as faixas etárias é estabelecendo entre elas uma relação com a morte: a infância é aquela fase absolutamente distante dela, tão distante que sequer a conhece, que sequer sente sua pressão na pele (ou que a sente apenas nas lufadas de sofrimento das doenças infantis).
A juventude, por sua vez, toma consciência radical da morte. Mas está também distante dela, justamente por seu vigor vital. Por isso mesmo, é quando se é jovem que mais se desafia a morte. A fase adulta (a fase sem nome, já que não foi definida uma adultidade e o termo maturidade só costuma funcionar relativamente) é aquela em que a morte, embora existente, é apagada. Pela biografia, por uma força construtiva que faz o homem se mover para conquistas pessoais.
A velhice, enfim, é o período em que a morte retorna como horizonte obrigatório : ela está próxima, o corpo demanda cuidados, a biografia assume outros sentidos.
Pois bem. Em Lévi-Strauss, os ritos de natal são formas de ressignificação da infância e da fase adulta. Por meio justamente... dos mortos. Sim, para o antropólogo, o natal é uma festa a respeito da morte, e não a respeito do nascimento.
De volta ao fenômeno: a execução do Papai Noel é compreensível em seu tempo. Estamos na Europa, no começo dos anos 1950, em um contexto de recuperação pós-guerra(s) e de crescimento galopante da influência cultural americana em todo o mundo. Para os cristãos de Dijon (e, talvez, para os 250 infantes que tomaram parte da cerimônia), Santa Klaus representava uma invasão ianque e (retoricamente), anticristã. Para eles, o Natal deve continuar a ser o festejo que comemora o nascimento do Salvador .
Mas virava uma festa centrada em uma ação social específica: o dar presentes às crianças por parte dos adultos. No que diz respeito à história, o autor mostra como essa tradição continua a de festas pagãs européias medievais. No âmbito da antropologia estrutural, ele compara esses ritos com aqueles promovidos por índios do sudoeste norte-americano, encontrando uma relação entre o que é feito pelos europeus e as katchina, entregas de dádivas aos infantes. Nos dois lugares, adultos se fantasiam para dar os presentes. Mas na katchina, são os mortos que o recebem. As crianças, por estarem distantes da morte, por assumirem uma posição quase angelical, mística, são ao mesmo tempo a repetição e a representação desses mortos. Assim, é ritual de apagamentos: os adultos não são os adultos, as crianças não são as crianças, tampouco os espíritos são o que são. É rito, então, de definição de fronteiras entre grupos: aos adultos, a biografia, o poder de produzir o que se dá de presente; às crianças, a limitação, o recebimento das dádivas apenas uma vez por ano . Assim, Papai Noel não é apenas uma mistificação [grifos dele] agradavelmente imposta pelos adultos às crianças; é, em larga medida, o resultado de uma negociação muito onerosa entre duas gerações .
Essa negociação, lida atualmente, pode soar uma antropologice , um desejo de converter em operação . Não pode ser tomada assim, sobretudo se se leva em conta a onipresença de uma anti-divinização: Papai Noel não é um ente religioso, por mais que se queira fazer dele São Nicolau. Lévi-Strauss inclusive trata da maneira como o bispo que deu origem a boa parte da imagem do natal: era um jovem, mas foi envelhecido, ganhou barba e essa imortalidade justamente para assumir a dimensão de relação com a infância que lhe era necessária.
Nesse percurso, a entidade que mais entra em questão é mesmo a família. É ela o microcosmo em que o jogo entre crianças e adultos se dá. Se há um domínio cívico no Natal aquele em que toda uma sociedade se volta para uma celebração da paz entre os homens há sobretudo uma demarcação de um lugar no qual se dá essa economia das dádivas e de uma contradádiva amorosa, algo que poderíamos chamar de familiaridade , o reconhecimento de uma relação inevitável, confiável, íntima.
Por isso mesmo, se é a morte o elemento central dos ritos natalinos até religiosamente, porque ali nasce aquele que a venceria anos depois e se esta é filtrada por forte violência no caso de Dijon, não é tanto uma perda da doçura o que se revela aqui. Se o Papai Noel não se torna uma divindade e se a festa é desmontada como rito de iniciação , ele também não deixa de ser uma operação de apaziguamento: A 'não-iniciação' [qualidade das crianças, as não iniciadas, que não têm acesso à liberdade e ao poder] não é apenas um estado de privação, definido pela ignorância, pela ilusão ou por outras conotações negativas. A relação entre iniciados e não-iniciados tem um conteúdo positivo. É uma relação complementar entre dois grupos . Assim, cortar o peru, tomar determinadas bebidas, comer determinadas frutas, nozes e doces (tâmaras, castanhas, rabanadas, como se estabeleceu no Brasil) pendurar bolas em um pinheiro, embrulhar e dar presentes, tudo isso faz parte de uma mecânica de pacificação, de inventar uma forma de tornar uma diferença ao mesmo tempo lembrada como separação e forçada como união. A paz e o amor não precisam ser ingênuos e nem deixar de ser paz e amor.
