Artistas do universo alternativo saem das pistas para trilhas da Globo

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Braulio Lorentz, JB Online

RIO - A abertura é com Viva la vida, sucesso britpop do Coldplay; passa pela dançante That's not my name, do duo electro roqueiro Ting Tings e por faixas das musas ruivas pianistas Regina Spektor (Fidelity) e Kate Nash (Pumpkin song); até chegar ao hit do assobio das pistas de rock alternativo Young folks, dos suecos Peter, Bjorn and John.

A descrição não é a do repertório de um DJ descolado: trata-se do CD com a trilha sonora internacional de A favorita, no ar na faixa das 21h da Rede Globo. O pop alternativo pulou direto das pistas moderninhas para a novela das oito e outras atrações da grade global.

Mais um caso de queridinhos do rock alternativo que foram parar numa produção da TV Globo teve o Beirut, que não tem CDs lançados no Brasil, como protagonista. A inclusão de Elephant gun na minissérie Capitu, veiculada na semana passada, foi bastante comentada em blogs.

Diretor da atração, Luiz Fernando Carvalho conta por quais motivos a canção do projeto liderado pelo americano Zach Condon foi escolhida.

Toda a trilha é fruto do meu gosto pessoal explica Carvalho. O que importa é a música funcionar na trama, e foi o caso do Beirut. Simplesmente montei uma trilha que me falava ao coração com o que ouvi desde os 18 anos até agora. Como as músicas clássicas, para mim fundamentais até hoje. Não é uma trilha de rock, é variada e atende à necessidade de uma história. Vai de Verdi a Iron Maiden.

José Felipe Calderon é DJ da Maldita, festa roqueira que há 10 anos acontece às segundas na Casa da Matriz, em Botafogo. Ele vê com bons olhos várias músicas escaparem de seu set list para o CD que tem a atriz Mariana Ximenes estampada na capa.

Acho positivo, é mais uma forma de fazer com que todos escutem coisas diferentes. As pessoas têm preguiça de buscar novos sons e novas bandas pondera o DJ Zé. Tem muita gente que reclama num ranço meio indie de querer que não popularizem essa ou aquela música. São artistas que tocamos e são do nosso universo. Espero que isso continue. Tomara que seja uma tendência.

Quem tem desejo semelhante é o DJ Mario Moptop, que carrega no sobrenome artístico a banda da qual é baterista.

O indie rock está ganhando espaço no mercado, inclusive nas rádios sentencia Mario, que comanda a festa Rock my Madness, no Pista 3, em Botafogo. O bacana no caso de Regina Spektor e Kate Nash é que facilita uma aguardada vinda delas para o Brasil. Tem sempre um público que está interessado e não tem paciência e contato, não se atualiza. É legal alcançar um número maior de pessoas.

O DJ e baterista diagnostica:

Tem a síndrome do underground, o cara quer que só ele conheça certas bandas. É algo errado. O maior número de pessoas tem que conhecer as músicas legais. Quero entrar no elevador e ouvir a minha música. Abre uma janela para esses artistas. No Moptop, percebo isso. Um single vira um cartão de visita e a pessoa quer ouvir mais. É um caminho.

Único brasileiro presente no disco com músicas em inglês que embalam a trama de A favorita, o cantor e compositor brasiliense Tiago Iorc, 23 anos, encaixa Blame na coletânea. Ele conta como é estar em meio a tantas estrelas do indie rock internacional.

É legal ver que estou entre artistas que admiro, que são de outro nicho e nem sempre estão em novelas diz Iorc. De uma forma geral, as trilhas estão indo para esse lado. Estão surgindo muitos artistas novos legais com alcance internacional que acabam não chegando para a grande massa.

Gerentes de promoção internacional da gravadora Universal, Bernardo Palmeira e Danielle Lage indicaram Kate Nash, Tokio Hotel, Peter, Bjorn and John e Gabriela Cilmi para serem incluídos no CD de A favorita.

Estamos com mais espaço e liberdade para sugerir coisas que vão além dos sucessos incontestáveis reconhe Palmeira. É engraçado perceber que a trilha desta novela é baseada estritamente na força das canções que por coincidência são de artistas que estão à margem. Se você correr o circuito independente vê todos cantando essas músicas.

Daniella completa:

Diferentemente da MTV, em que você trabalha o artista, não há espaço para isso. Quando indicamos, pensamos na força que a música vai ter. Se pode dar um caldo bacana.

Para Palmeira, o processo é simples: a música fica associada ao personagem até que o artista de médio ou pequeno porte venha ao Brasil e tome o hit para si.

Os produtores da novela estão mais antenados além do mainstream. Quando inserimos música na trilha, promotores de show olham de outro modo para o artista.