Filmes revelam a poesia e a alma de Manoel de Barros e Waly Salomão

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Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

RIO - Dois poetas brasileiros de estilo e relação com a vida absolutamente diferentes são revelados de corpo inteiro pela programação do Festival do Rio. Pan-cinema permanente, de Carlos Nader, que ganha a primeira projeção pública nesta sexta-feira, às 22h30, no Cine Odeon, recupera a efusiva personalidade do baiano Waly Salomão, morto em 2003. Só dez por cento é mentira, de Pedro Cezar, que faz sua estréia na grade da mostra Retratos no sábado, às 17h30, celebra a obra do recluso matogrossense Manoel de Barros, de 92 anos, cuja riqueza só começou a ganhar reconhecimento público em meados dos anos 80.

Personagens de conduta opostas, dificuldades distintas. Tímido e arredio, Manoel de Barros só concordou em abrir-se para a câmera HD de Cezar depois de muitas visitas à fazenda do poeta, em Corumbá, e muito trabalho de convencimento. E, mesmo assim, a maior parte dos depoimentos e imagens que integram o longa-metragem foi extraída da primeira entrevista, realizada a título de pesquisa para o projeto. Depois dela, o poeta, que lançou Poemas concebidos sem pecado, seu primeiro livro de poesias, há mais de 60 anos, fechou-se completamente para o filme.

Quando anunciei que não ia insistir mais, comentei: Era um sonho meu fazer esse filme sobre você, cara . Foi aí que ele pediu para voltar no dia seguinte com o equipamento lembra Cezar, que estreou na direção como co-autor do documentário Fábio Fabuloso, vencedor do prêmio do Júri Popular do Festival do Rio de 2004. Mas essa gentileza teve um preço para ele. Gravamos a entrevista pela manhã. Quando voltei no final da tarde com chocolates para agradecer, o Manoel já estava dormindo. A esposa dele, dona Stella, nos confidenciou que ele tinha tomado remédios para poder nos dar a entrevista, porque costuma ficar muito nervoso nessas situações.

Performances para os amigos

Formado em direito, Waly Salomão rabiscou os versos de seu primeiro livro numa cela do Carandiru, no início dos anos 70. Amigo do artista plástico Helio Oiticica, aproximou-se dos artistas tropicalistas, tornando-se um dos compositores preferidos de Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia. Conhecido pela extroversão e o caráter extremamente performático de sua interação com o mundo, Waly Salomão ofereceu a Nader o desafio oposto ao construído por Manoel de Barros: como fazer um documentário que tenta desnudar um personagem que está sempre se escondendo atrás de máscaras e de performances?

Achava que as performances que ele fazia para os amigos eram mais interessantes do que as outras, mais públicas. Eram experiências inesquecíveis para quem as testemunhou. Algumas epifânicas, outras quase insuportáveis, mas sempre reveladoras. Só que ele não abria a guarda para a câmera confessa o diretor. Apesar das minhas tentativas, ele queria aparecer encenando a si próprio e aos outros. Foi na montagem que entendi que o filme deveria ser exatamente sobre isto, alguém que acredita que a vida é um filme de ficção, que acha que a vida é um Pan-cinema permanente, como no poema que ele escreveu para mim em 1994, e que eu, confesso, não entendi a princípio.

No caso de Só dez por cento é mentira, a resistência de Manoel de Barros obrigou Cezar a buscar alternativas para preencher as lacunas deixadas pelo poeta. Que, no final das contas, enriqueceram o documentário de Cezar. O filme é reforçado por depoimentos de artistas e criadores cujo trabalho foi afetado de alguma forma pela prosa de Barros, que afirma que 90% do que escrevo são invenção . Gente como a atriz e jornalista Bianca Ramoneda, que encenou Inutilezas, composição sobre textos do poeta, e o cineasta Joel Pizzini, que fez o mesmo com o curta Caramujo flor (1988).

O longa ganha também com a contribuição de pessoas ligadas intimamente ao poeta, como o fazendeiro e artista-plástico Danilinho, e o afilhado Palmiro, ex-funcionário da fazenda da família, cuja linguagem quebrada inspirou o padrinho.

Demorei dois anos só para encontrar uma forma ideal para o filme. Originalmente, ele tinha uma outra levada, tinha muita gente falando, muito recurso de montagem, que fez tudo ficar muito diluído. Na montagem, descobri que o filme deveria ter mais Manoel conta Cezar, que pretende lançar Só dez por cento é mentira em novembro.

Do Amazonas a Beirute

Pan-cinema permanente saiu da última edição do É Tudo Verdade como vencedor da categoria Documentário Brasileiro. Amigos de longa data, Nader começou a seguir Waly com uma câmera em 1994.

A idéia de fazer um filme com ele ou sobre ele existia desde aquela época explica o diretor, que passou a levar Salomão para todo festival que era convidado, ou incluí-lo em projetos de trabalho. O filme conta com registros de performances do poeta no Amazonas, Salvador, Colônia (Alemanha) e até em Beirute, na Síria, onde o pai do poeta nasceu.

Era assim que fazíamos o filme, com restos de outros trabalhos, já que não havia verba de produção explica Nader, que usa de artifícios poéticos para mimetizar o estilo do baiano de Jequié.

Nader acredita que não seria possível fazer um filme sobre o poeta sem deixar que sua personalidade interferisse na sua forma:

Em um documentário, a mimetização acontece em algum grau quando a gente se envolve com um personagem. Há alguma coisa da fragmentação, da não-linearidade, da cor do Waly concorda. Quis fazer um documentário artificial, algo que estava dentro da doutrina de Waly. A máscara é usada mais para revelar do que para velar. Poeticamente, é um véu que desvela.