Stacey Kent e Carla Bley, as 'damas sofisticadas' no Tim Festival

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Braulio Lorentz, Jornal do Brasil

RIO - Início de relação precoce com o jazz, por meio de parentes; estréia em disco por volta dos 30 anos; e um casamento que trouxe uma guinada na carreira. Atrações do palco Sophisticated Ladies, do Tim Festival, as americanas Stacey Kent e Carla Bley têm corredores musicais semelhantes. As duas damas sofisticadas apresentam-se na Marina da Glória em 24 de outubro. O rótulo cabe ao estilo de ambas, e os pedaços em comum não param por aí. As duas foram mais escolhidas pela música do que vice-versa: a primeira foi de mestranda de literatura comparada a cantora. E a segunda era uma vendedora de cigarros que se fez pianista.

Stacey, cantora de 40 anos e 10 de carreira, saiu dos Estados Unidos para a Europa decidida a terminar seu mestrado em literatura comparada. Foi quando esbarrou com o futuro marido, incentivador e parceiro, o sax tenor Jim Tomlinson, em Oxford, na Inglaterra, entre uma aula e outra. Foi com ele que moldou um repertório que vai da música brasileira a canções como Ces petits riens (Serge Gainsbourg) e What a wonderful world (George Weiss/Bob Thiele, famosa com Louis Armstrong).

Encontrar Jim não mudou minha carreira. Deu-me uma carreira. Éramos estudantes, tivemos química e amávamos música. E nos amamos declara-se Stacey, em entrevista por telefone ao Jornal do Brasil, da Inglaterra.

Ela assume que a estréia (Close your eyes, de 1997) foi de certa forma tardia, se levada em conta a precocidade de algumas cantoras.

Foi importante não ter lançado antes. Nada aconteceu cedo em minha carreira. Foi um sucesso, e não digo pelas vendas. Estava mais madura, me expressava melhor. Foi uma virada define Stacey.

A cantora nova-iorquina conta que nunca imaginara a música como trabalho.

Eu nasci na música. Ela sempre fez parte da minha vida, mas não senti que deveria fazer isso profissionalmente explica Stacey. Amo meus estudos, foi natural ter a literatura comparada em primeiro lugar, já que minha família é de professores. Mas aí conheci pessoas e passei a cantar mais. Estava me divertindo. É uma história comum: a música estava em minha vida, e foi se tornando algo profissional.

Quem rodeia Stacey gosta de vê-la cantar standards. Amigos de faculdade, que costumavam pedir uma canja nos intervalos, ou o diretor e ator Clint Eastwood, que a convocou para uma performance em seu aniversário de 70 anos.

Fiquei honrada, não só porque é um grande cineasta. Ele escolhe boas canções para os filmes. Foi uma bela noite resume a cantora.

Na passagem pelo Brasil, ainda não vai poder treinar o português, idioma que se esforça para aprender em aulas. Por enquanto, sua versão de Samba da benção, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, é cantada em francês, língua que estuda desde criança.

Infelizmente não falo português, mas já comecei a aprender avisa. Samba da benção é um poema delicado e simples sobre a vida. Amo essa música. O brasileiro consegue ter a tristeza e a alegria lado a lado. Gosto da expressão brasileira desse sentimento. E gosto também da musicalidade.

Estudante de literatura e de idiomas, Stacey não pode ser considerada uma aluna convencional quando o assunto é jazz.

Sempre estudei música meio sem saber. Cantar me faz bem, mas fazer isso para quem escreveu a canção é sempre diferente.

Entre outros, a cantora se refere ao compositor Jay Livingston, morto em 2001 e três vezes ganhador do Oscar. Certa vez, Livingston descreveu Stacey como dona do estilo das grandes, como Billie Holiday e Ella Fitzgerald . E completou: Ela canta as palavras como Nat King Cole . A emissão singela e limpa em canções é notada quando se fala com a cantora.

Filha do professor de piano Emil Borg, Carla Bley, 70 anos, resume, com voz arrastada, seu contato com a música numa imagem.

Quando tinha 5 anos, perguntei a meu pai: Como se colocam as notas na partitura? conta Carla, dos Estados Unidos, ao Jornal do Brasil. Então ele me deu uma folha de papel em branco. Fiz algumas marcas. Ele disse: Você não fez nada . Gostava da idéia de compor desde essa idade, mas mal sabia o que estava fazendo.

Durante a adolescência, mudou-se para Nova York, onde trabalhou no clube de jazz Birdland. Vender cigarros era uma desculpa para ver shows e estar perto da música que tanto admirava. Só não esperava encontrar o marido e parceiro musical Paul Bley, também pianista e hoje com 75 anos.

Ouvi muita gente naquele tempo, mas não os conheci, porque era tímida. O mais importante foi ter conhecido o Paul. Tudo começou com ele comprando um maço de cigarros.

No Tim Festival, ela desembarca com formação mais enxuta do que as das big bangs que alimenta com suas composições. Vem com um quinteto, que interpreta, entre outras, tema escrito especialmente para a nova formação: The banana quintet.

Não me considero pianista. Ensaio 20 minutos por dia, não sei tocar rápido. Sou uma compositora. Toco piano apenas para mostrar minhas composições.

Carla afirma que não conhece o trabalho de Stacey e Esperanza Spalding, que tocam com ela no Sophisticated Ladies. E tampouco sabia do nome do palco ( legal que ninguém tenha me avisado que este é o nome do palco , diz, com ironia. Mas tudo bem ). E completa:

Nunca ouvi as duas. Não tenho muito tempo para ouvir música nova.