Tico Santa Cruz: 'Ausência do guitarrista está presente no novo CD'

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Leandro Souto Maior, JB Online

RIO - A banda Detonautas Roque Clube apresenta seu novo CD, O Retorno de Saturno, nesta sexta-feira, com show no Canecão. Além das músicas novas, a apresentação também traz músicas dos três primeiros álbuns e algumas surpresas, como releituras de Frevo Mulher (Zé Ramalho) e O Tempo Não Pára (Cazuza).

O Retorno de Saturno é o primeiro disco do grupo sem a participação do guitarrista Rodrigo Netto, que morreu tragicamente em tentativa de assalto. O vocalista Tico Santa Cruz falou ao JB Online sobre o novo álbum, a ausência do músico e as novas fornmas de se consumir música.

JB Online: Qual o significado do título do novo álbum?

Tico Santa Cruz: O retorno de Saturno é um momento astrológico. Acontece entre os 28 e trinta anos, período que escrevi as letras do disco. Para quem acredita em astrologia, é uma fase revolucionária, de recomeço, e um período onde você colhe o que plantou ao longo do tempo que ficou para trás.

JB Online: É um disco conceitual?

Tico Santa Cruz: Criamos um conceito baseado nas experiências que tivemos nos últimos 30 anos de vida. Demoramos todo este tempo para chegar até aqui e poder escrever letras que reflitem nossas histórias, saudades e questionamentos. Fizemos o mapa astral do disco, que está no CD, e a cor roxa, que é predominante no álbum, tem um significado embutido também: é a cor da criatividade.

JB Online: O Detonautas sem Rodrigo Netto é diferente? Sua ausência afetou a sonoridade da banda?

Tico Santa Cruz: Sem dúvida. O Netto compunha junto comigo e sempre tinha ótimas soluções para os arranjos. Foi um desafio e tanto criar este disco. Sua ausência está presente em tudo que fizemos, nas letras e nas idéias.

JB Online: Por que a escolha de Frevo Mulher e O Tempo Não Pára? Vocês gostam de fazer versões?

Tico Santa Cruz: Sempre privilegiamos a música nacional. Pegamos Frevo mulher pela admiração que temos por Zé Ramalho, mas principalmente por esta canção ter uma flexibilidade e uma liberdade incrível que se adapta a qualquer formato. Já toquei ela em blues e até em reggae. Arnaldo Brandão e Cazuza profetizaram na canção O Tempo Não Pára palavras que expressam muito bem o que estamos vivendo nos dias atuais: é o museu de grandes novidades. Já tocamos várias outras versões, de Legião a Raul Seixas. É bom tocar os clássicos e sentir a energia que essas músicas emanam.

JB Online: Como é seu trabalho no grupo Voluntários da Pátria?

Tico Santa Cruz: O Voluntários é um grupo de artistas que se propõe a levar uma reflexão coletiva para as escolas, faculdades, presídios, e onde mais exista gente interessada em debater e trocar idéias a respeito de cidadania, política, arte e filosofia. É um trabalho social na medida em que estamos em contato direto com os jovens estimulando o senso crítico e a responsabilidade de cada um dentro da sociedade. E fazemos isso através da música e da poesia, que são elementos mágicos.

JB Online: Você acha que mais pessoas públicas deveriam se envolver em questões sociais?

Tico Santa Cruz: Se for de coração e com intuito de agregar forças sim. Ainda que seja só para aparecer no jornal dizendo que está fazendo algo pela sociedade, pois a classe artística tem força e as pessoas públicas são escutadas por milhares. Quando os intelectuais ou os se mobilizam para pressionar o poder público, as chances de sermos ouvidos é sempre maior. Mas parece que as pessoas perderam a fé nelas mesmas e se resignaram numa vida de pequenas conquistas pessoais.

JB Online: No ano passado, você declarou que faria uma manifestação 'bem humorada' por mês contra a violência. Você parou? Por que? Você ficou decepcionado por não ter tantas adesões quanto desejava?

Tico Santa Cruz: Continuamos, a imprensa é que parou de acompanhar e sem a imprensa as pessoas não ficam sabendo do que está acontecendo. Se juntamos um grupo de 30 pessoas para cobrar soluções e a grande maioria do povo ignora isso, acabamos perdendo a força. A imprensa é sim o 'quarto poder', e quando reserva espaço para que a população mostre sua indignação acabamos atingindo mais e mais gente. Nós continuamos nossa luta o Voluntários não parou.

JB Online: O que acha das novas formas de consumir música e qual imagina será o futuro do CD? Ainda: como vê o problema da pirataria?

Tico Santa Cruz: A nova geração ignora o CD. Para eles, música é um arquivo que se baixa na internet. Isso tem um lado bom, pois não depende de nenhum intermediário para chegar aos ouvidos das pessoas. Por outro lado, tudo é consumido e jogado fora numa velocidade incrível. Teremos que aprender a lidar com esse paradoxo e mostrar que um trabalho não se resume a uma faixa que possa fazer sucesso ou não. A criatividade de cada um prevalecerá e o futuro está nos celulares.