Evento L.A.P.A. leva o rap do boêmio bairro no Centro para o Humaitá
Leandro Souto Maior, JB Online
RIO - A Lapa é no Humaitá. Pelo menos na noite dessa quinta-feira. O recém reaberto Espaço Cultural Sérgio Porto foi ambientado como o boêmio bairro no Centro para a festa L.A.P.A. (lê-se ele-a-pê-a).
O evento, organizado pelo agitador cultural multifacetado Caví, reuniu diversos MCs e foi filmado para entrar nos extras do DVD do filme L.A.P.A., com lançamento previsto nas lojas e locadoras para dezembro. A estréia nos cinemas está programada para setembro. Dirigido por Caví e Emílio Domingos, o documentário registra o movimento rap na Lapa. Foram dois anos acompanhando vários MCs. O resultado já coleciona prêmios, inclusive internacionais.
Na festa no Sérgio Porto, antes do início de apresentações ao vivo de alguns dos personagens do longa, a noite foi aberta com a exibição do mesmo em um telão. São diversos os méritos documentário, mas o que provavelmente chamará a atenção dos cariocas frequentadores da Lapa logo de início será ver o bairro de dia, com cores vivas nem sempre percebidas no meio da muvuca e sombras das clássicas noitadas do bairro.
- O rap do Rio nasceu aqui na Lapa - diz Marcelo D2 in loco no filme.
Apesar de ter seu berço no bairro onde a legítima música brasileira - no caso, o samba - fez muita história, o filme também registra que muito do hip-hop produzido aqui é imitação dos 'gringos', fato bem apontado e criticado em outro momento pelo rapper Gustavo Black Alien.
Outro expoente do 'movimento', o MC Marechal revela um dos fatores principais para o fim da festa Zoeira, exclusiva de hip-hop que acontecia no bairro nos anos 90.
- Ninguém queria pagar nem R$ 3 para entrar... quebrou a festa - lamenta o 'tiro no pé' dado pelos apreciadores (?!) do gênero.
O local onde acontecia o evento hoje é uma igreja. O hip-hop pulsa atualmente em uma sala na Fundição Progresso, onde acontece toda quinta-feira a Batalha do Real, com desafios de rimadores.
O rapper B Negão também é presença marcante no documentário. Junto com outros dois protagonistas do filme - D2 e Black Alien - formava o Planet Hemp, grupo que misturou genialmente o hip-hop com diversos outros gêneros que os integrantes curtiam, do rock aos ritmos brasileiros, sem rótulos ou preconceitos. A bandeira pela legalização da maconha que o grupo carregava eclipsou um bocado seu pioneirismo musical, mas no documentário os três se revelam como dos mais geniais entre todos os que aparecem. Talvez por não terem se limitado às fronteiras do 'movimento', como destaca D2 no filme.
A busca pela viabilização financeira da carreira é o tom de L.A.P.A.
- Ninguém fica com 18 anos a vida inteira. Eu quero é ganhar dinheiro! - decreta D2
- Comecei a fazer música para estar livre de um monte de gente burocrática e de repente me vi diante de royalties, executivos, gravadoras, direito autoral, direito conexo, tudo o que eu sempre quis me afastar - polemiza Black Alien.
Apesar das participações marcantes que os ex-Planet Hemp imprimiram no filme, eles não apareceram no evento no Sérgio Porto, apesar de terem sido anunciados. MCs sem a mesma expressão nacional se revezaram na apresentação, o que não tirou o brilho da noite, tá ligado?.
