O progresso da obra de Caetano Veloso

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Jaime Gonçalves Filho, JB Online

RIO - Quando tudo apontava para o marasmo da supresa esperada, Caetano Veloso dá um chega pra lá na mesmice, deixa de lado o semanal blá blá blá polêmico e inova dentro de sua nova proposta, de novo com perdão da redundância.

A quarta apresentação da série 'Obra em progresso', onde o artista se propõe apresentar, ao vivo, a construção de seu próximo trabalho foi, provavelmente, a mais bem sucedida sem demérito algum para as anteriores. Isso porque Caetano, driblando a proposta inicial de dar aos espetáculos um 'caráter jornalístico', comentando entre as canções assuntos palpitantes da semana, decidiu pura e simplesmente privilegiar a música. E só ela.

O cantor e compositor abriu os trabalhos com 'Alguém me avisou', de Dona Ivone Lara, que assistia o show e foi saudada pelo baiano. A partir daí, o roteiro seguiu entremeando os recentes trabalhos com músicas do álbum Cê, e uma ou outra mais antiga. Falso Leblon, Sem cais, Base de Guantânamo e A cor amarela estavam entre as da nova safra. Mas a surpresa da noite ficou por conta dos convidados e não do anfitrião.

- Hoje eu não estou falando nada, só falei da Dona Ivone Lara e agora vou falar de outra mulher, que é nossa primeira convidada. É uma menina muito linda e muito musical, é brasileira, mas está cantando no grupo Thievery Corporation apresentou o baiano.

A participação de Karina Zeviani, brasileira musicalmente radicada em Nova York, foi como um sopro excitante no tempo sexualmente roqueiro de Caetano. A moça que foi convidada, mas rejeitou o convite para substituir Zélia Duncan nos Mutantes, apresentou sua Bandeja do imperador e dividiu com o dono da noite a bilíngue You don't know me e O ciúme. Na segunda, errou um trechinho da letra, mas ambas foram interpretadas com segurança e beleza.

Ex-Hanói-Hanói faz participação furiosa

Os músicos Pedro Sá (guitarra), Marcelo Calado (bateria) e Ricardo Dias Gomes (baixo e teclado), calejados por quase dois anos de turnê, têm exibido uma sintonia musical redonda com o dono da festa, sem gorduras nem firulas desnecessárias. A obra de Caetano tem, de fato, progredido. E isso fica mais nítido a cada show, a cada participação especial.

O segundo convidado, o músico Arnaldo Brandão, ex-A bolha , Caetano apresentou como sendo importante em sua vida pessoal e musical.

- Eu o conheci quando estava em Londres, depois vim a tocar com ele durante anos, na Outra banda da terra. Eu acompanho tudo o que ele faz com muita atenção e carinho e, sobretudo, porque nos anos 70 eu gravei uma canção dele que estourou disse, se referindo a Totalmente demais, na verdade gravada no disco homönimo de 1986.

- Ele é um dos mais puros e profundos amantes do rock'n'roll que tem no Brasil

Ronaldo Fenômeno assiste a espetáculo

A famosa canção, entoada pelos dois no Viva Rio, ganhou uma levada reggae, mas com conceito roqueiro. Em seguida, os dois cantaram interpretaram Porquê?, do álbum Cê, que remete a uma piada sexual sobre portugueses. Fazendo juz ao comentário de Caetano sobre ele ser amante do rock, Brandão fez uma versão furiosa de Ano do dragão, do Hanói- Hanói, banda que também liderou nos anos 80.

Para encerrar a brincadeira, foram chamados de volta os convidados fixos desde a primeira apresentação: Jorge Mautner e Nelson Jacobina. O repertório termina, invariavelmente, com Eu não peço desculpas e Manjar de reis, o violino gritante e um tai chi shuan nervoso de Matner, para divertimento do público.

Concorrido, 'Obra em progresso' tem arrastado hordas de famosos e anônimos à casa de show do Aterro do Flamengo, Zona Sul do Rio. 'Homenageado' por Caetano no primeiro show, que aconteceu logo após a polêmica com os travestis na Barra da Tijuca, Ronaldo Fenômeno estava na platéia desta quarta-feira. Estavam lá também Malu Mader, Toni Belloto, Marieta Severo, Silvia Buarque, Betty Goffman, Bia Lessa, Carla Carmuratti, Marcos Palmeira e muitos outros.

O último espetáculo da série acontece na próxima quarta-feira, dia 18, no mesmo Vivo Rio. Se o leitor quiser participar de um momento importante da música brasileira, hora em que um artista já 'estabilizado' arrisca (novamente) e decide saltar sem rede, para surpresa da platéia, o momento é esse. Caso contrário, só resta contar com a possibilidade (não confirmada) de retorno em agosto. Mas lá, certamente, a história será outra.