'Lady Chatterley' atualiza romance de D. H. Lawrence
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SÃO PAULO - A diretora francesa Pascale Ferran conseguiu um grande feito com 'Lady Chatterley', que estréia em São Paulo nesta sexta-feira: fazer um filme de época com uma leitura contemporânea. No Rio, o filme deve entrar em cartaz na próxima semana.
Diretores que se arriscam nesse tipo de filme muitas vezes caem numa mesma armadilha, fazer um filme preso ao passado, o que o torna pesado e quase sempre desinteressante. O francês 'Lady Chatterley' vai na contramão desse estereótipo.
Adaptado de uma segunda e menos conhecida versão do romance 'O Amante de Lady Chatterley', do inglês D. H. Lawrence, o longa prima pela leveza, sem cair numa abordagem rasa.
A diretora francesa reencontra o frescor do livro publicado na década de 1920, que chegou a sofrer um processo por obscenidade. Na Inglaterra, só foi liberado na década de 1960. Até então, só era encontrado ilegalmente.
Diferente da versão mais popular do romance de Lawrence, aqui o foco se fecha na personagem central -- tanto que no título do filme nem há a palavra 'amante'. Constance (Marina Hands, de 'As Invasões Bárbaras') é uma jovem aristocrata casada com um marido inválido (Hippolyte Girardot, de 'Paris, Te Amo'), que lhe dá pouca atenção e prefere cuidar de seus negócios com mineração.
Durante um passeio por sua propriedade, Lady Chatterley conhece o novo guarda de caça da propriedade, Parkin (Jean-Louis Coulloc'h). Se no princípio há uma estranheza entre os dois, deixando as distinções sociais prevalecerem, com o tempo o relacionamento se transforma em amizade e, posteriormente, num romance.
Longe de limitar-se ao seu aspecto erótico, esse envolvimento tem um papel fundamental para que os dois personagens definam suas próprias identidades. Nesse sentido, 'Lady Chatterley' é abertamente feminista, ao trazer ao centro o ponto de vista e as sensações de Constance.
Das seis adaptações do livro para o cinema e televisão, aliás, esta é a única até agora dirigida por uma mulher -- o que faz uma grande diferença na compreensão da protagonista. 'Lady Chatterley' lida francamente com o despertar sexual da personagem, pelas mãos de Parkin.
A diretora mostra com clareza e sutileza como a atração sexual muda a percepção que Constance e Parkin têm do mundo e de si mesmos. Se os personagens nem sempre conseguem encontrar palavras para explicar sua experiência, a diretora traduz isso em imagens. Cenas da natureza, flores em especial, têm um significado importante nas descobertas dos amantes.
Ao adaptar o romance de Lawrence, Pascale redescobre a obra literária, restaurando uma vitalidade que se perdera com o tempo. O longa ganhou cinco prêmios César na França em 2006 -- melhor filme, roteiro, fotografia, figurino e atriz.
