Lobão polemiza na Flip e diz que sente saudades da ditadura
Portal Terra
PARATI - Na primeira manhã da maratona composta de 21 mesas distribuídas nos quatro dias da Festa Literária Internacional de Parati (Flip), os Uivos, tema da mesa 2, composta por Lobão e Chacal, arrancaram aplausos tanto de quem assistia ao encontro ao vivo, na Tenda dos Autores, quanto dos que acompanhavam, na tenda da Matriz, pelo telão. Lobão polemizou ao dizer que sentia saudades da ditadura, pois "pelo menos eles nos transformavam em heróis".
O cantor participa pela primeira vez do evento e se apresentou como músico.
- Me considero uma pessoa que tem preguiça mental. Primeiro faço a música, a letra vem depois.
Ele abriu os trabalhos com uma exceção à regra que acabara de ditar, cantando a Balada do Inimigo e explicando que, nesta composição, havia ocorrido o inverso. Primeiro veio a letra, depois a música
Chacal, um dos fundadores do grupo de poetas Nuvem Cigana, na década de 70, disse ser este um momento de apogeu, por lançar em Parati suas obras completas "um livro que fica em pé sozinho, sem precisar se apoiar nos outros".
O poeta ressaltou sua ligação local.
- No início da minha vida, eu me dividia entre o submarino amarelo e os camburões da ditadura. Era o Rio de Janeiro da repressão e a Parati dos sonhos. A cidade é um marco na minha vida.
Apresentações feitas, as diferenças foram ressaltadas. Para Chacal, "poesia é música. Sabendo usar sua potência, sua força, ela se transforma num canto".
Num pequeno recital, ele exemplificou o que dizia, mostrando algumas de suas poesias. Lobão, ao contrário, explicou que sempre foi da música, tendo começado a tocar bateria com 3 anos. Segundo ele, sua mãe detestava poesia e teria sido justamente com o grupo Nuvem Cigana que ele pegou gosto pela coisa e deixou de lado a preguiça mental que o impedia de escrever.
- O cantor na banda de rock era como o goleiro no time de futebol. Quando você não sabia tocar nada, virava cantor.
A deixa levou Chacal a falar sobre a Blitz, grupo de rock dos anos 80:
- O rock de breque permitia fugir das linhas melódicas. Para ambos, nunca foi fácil fazer músicas de encomenda. No caso do poeta, nada contra pegarem seus poemas e musicarem. Já com Lobão a batida é mais radical.
- A música é tirana, soberana. Nunca consegui musicar um poema alheio.
- Hoje, falar a poesia me satisfaz. Me realizo melhor na poesia falada - explicou Chacal, exemplificando com um pequeno poema chamado Rápido e Rasteiro.
- Vai ter uma festa em que vou dançar até o sapato pedir para parar. Aí eu tiro o sapato e danço o resto da vida.
O diálogo continuou com Lobão aproveitando o mote para falar da próxima música que apresentou, composta quando Tom Jobim morreu.
- Lembrei do Samba do Avião, aquele que todo mundo lembra quando chega no Rio. Eu pensei, o avião caiu, o Rio não é mais aquele. Aí eu fiz o Samba da Caixa Preta.
Segundo Chacal, em 1971, a ditadura militar facilitou o trabalho de edição de livros de poesias no mimiógrafo porque reprimia este tipo de expressão mais libertária, marginal.
- Hoje em dia o sistema absorve qualquer coisa, é mais difícil ganhar exposição.
O assunto fez um Lobão, até então comportado, disparar sua metralhadora giratória.
- Que saudade da ditadura. Pelo menos eles nos transformavam em heróis. Hoje paga-se por tudo. Nós vivemos num país em que tudo é achacado pelo jabá. Paga-se para tirar multas de trânsito, para aprovar uma lei...
O cantor falou também sobre sua volta para a indústria cultural.
- Se a gente não driblar estes processos, a gente vai se auto exilar. Vamos ocupar espaços, aparecer no Faustão, fazer acústicos da MTV e falar, dizer. Se a música independente não tomar cuidado, vai ficar num gueto - disse ele.
