Litvinenko, ex-agente da KGB, é tema de documentário em Cannes
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CANNES - Um novo documentário sobre o exilado russo Alexander Litvinenko procura contextualizar seu assassinato, explicando o que pode ter levado um indivíduo a cometê-lo, com o possível apoio das autoridades russas.
O diretor Andrei Nekrasov, que era amigo do ex-agente da KGB, apresentou seu filme de duas horas no Festival de Cinema de Cannes, onde sua inclusão de última hora na programação oficial assegurou um encerramento controverso para o evento, que chega ao fim no domingo.
Embora não faça parte da competição principal, o documentário foi exibido na sexta-feira, e Nekrasov concedeu entrevistas antes mesmo da coletiva de imprensa programada para o sábado, que terá a participação de Marina, a viúva de Litvinenko.
"Rebellion: The Litvinenko Case" inclui uma entrevista com o próprio Litvinenko, que fazia críticas ao Kremlin.
Na entrevista, ele aventa sua teoria de que os serviços de segurança russos seriam os responsáveis por uma série de explosões de bombas em prédios residenciais de Moscou em 1999, que eles teriam então atribuído aos rebeldes chechênios como pretexto para lançar a guerra contra eles.
Nekrasov também filmou Litvinenko, já enfraquecido, num hospital de Londres pouco antes de sua morte por contaminação radioativa. Em um momento, ele abre os olhos repentinamente e encara a câmera fixamente.
No documentário, Litvinenko disse que temia por sua vida e acusou seus antigos patrões de corrupção e coerção.
O filme retrata o presidente Vladimir Putin como líder que incentiva um clima de medo e repressão na Rússia e que tem poucos escrúpulos quando se trata de fortalecer seu domínio.
- A contribuição que posso fazer para apresentar o quadro mais amplo é tentar compreender os motivos - disse Nekrasov à Reuters. - Acho que o mundo sempre se perguntou por que os russos são como são: imprevisíveis, brutais, às vezes com seu próprio povo.
LUGOVOY É ENTREVISTADO
O filme também traz uma entrevista feita por Nekrasov com Andrei Lugovoy, um ex-agente da KGB que a Grã-Bretanha declarou que quer acusar de ter envenenado Litvinenko, e se pergunta por que alguém aparentemente tão normal poderia envenenar e matar um inimigo em solo estrangeiro.
Nekrasov disse: - Não entenderemos isso se não examinarmos o pano de fundo do homem forte russo, o culto russo da lealdade ao senhor, essa estrutura de poder vertical que Putin anuncia orgulhosamente e que, na minha opinião, é algo negativo para a Rússia.
Lugovoy já negou ter assassinado Litvinenko, e a Rússia diz que sua Constituição não permite que ela extradite seus próprios cidadãos. No documentário, entrevistas com Litvinenko e outros ex-agentes russos que expuseram supostos crimes se alternam com imagens dos noticiários sobre a guerra de 1999 na Chechênia, incluindo algumas de crianças feridas em hospitais e de enterros de rebeldes chechênios e soldados russos. Civis russos são mostrados em programas de entrevistas dizendo que matar ou mutilar crianças chechênias se justifica porque elas poderiam crescer e tornar-se "terroristas" que atacam a Rússia.
A história recente também é comparada aos expurgos do stalinismo e outras formas de repressão soviética.
O único momento mais leve do filme acontece quando Lugovoy oferece uma xícara de chá a Nekrasov, que a rejeita educadamente, mas de imediato.
