Filme em questão - Volver, de Almodóvar
Agência JB
RIO - 'Almodóvar supera o próprio estilo'
Malu de Martino
Diretora de 'Mulheres do Brasil'
Toda vez que vou assistir a um filme de Almodóvar, sei que vou encontrar uma bem contada história sobre mulheres. Assim como Chico Buarque e Bukowski, esse grande diretor tem o dom de compreender e retratar com habilidade o universo feminino.
Sua obra tem uma dramaticidade excessiva, parecida com a realidade feminina. Para mim, as mulheres são essencialmente dramáticas, seja pela própria condição ou pela criação que nos é dada.
Filmando Mulheres do Brasil, entrevistei mulheres de diferentes gerações em três regiões do Brasil e pude perceber que era muito fácil chegar a assuntos sentimentais. Às vezes uma pergunta simples e direta deflagrava imediatamente um confessionário de profundas ambições ou frustrações. Almodóvar escuta e retrata essa voz feminina.
Exagero, teu nome é Almodóvar! Do roteiro à montagem, tudo leva à exacerbação. E isso não é ruim, faz parte do ser feminino, especialmente da mulher latina.
Surpreendentemente, em Volver a atuação das atrizes não tendeu ao excesso, muito ao contrário. Me deparei com uma naturalidade impressionante e destaco a atuação de Carmem Maura; Penélope Cruz poderia estar melhor. A cena em que a filha de sua personagem lhe conta sobre o estupro do suposto pai, embalada por uma trilha sonora over dramática, enfraquece o filme, enquanto a quase repetição dessa cena com Carmem relatando à personagem de Penélope o mesmo assunto é particularmente tocante.
Muito interessante é o fato de dramas pessoais tão fortes não se aprisionarem a explicações práticas como inquéritos policiais ou suspenses desnecessários. Afinal, estamos falando de, no mínimo, dois assassinatos, já que talvez Sole tenha matado o marido...
Temas barra-pesada são a especialidade de Almodóvar, mas desde Ata-me ele vem usando cada vez menos o humor negro. Em Volver, o humor serve para oxigenar o andamento e dar uma pausa na trama.
Este talvez seja o grande diferencial do filme dentro de sua obra Almodóvar não abusou dos mecanismos que caracterizam o próprio estilo. Ele trata um tema extremado como o incesto sob vários pontos de vista, emocionalmente conectados entre si. Mas quase justificando as atitudes e sempre sob a ótica feminina.
'Um pensador da alma feminina'
Elisa Lucinda - Atriz e poetisa
Pedro Almodóvar outra vez nos intriga, nos instiga, nos contempla e respeita com a originalidade do roteiro de Volver. Quem vai ver uma obra de Almodóvar nunca sabe o que vai assistir, sabe apenas que será surpreendente. Ele nos desnuda e cutuca algum carcomido conceito moral que porventura esteja alojado nos nossos recônditos. Volver é um filme cheio de mulheres com seus novelos, suas tramas, suas costuras, seus alinhavos, comuns e cotidianos no tecido da vida.
Já é antológica a abertura, com mulheres limpando os túmulos de seus mortos. As mulheres almodovarianas cuidam dos túmulos como uma metáfora do aforismo principal do filme: lustrar, limpar, voltar ao passado para redirecionar ou reescrever o presente.
Penélope Cruz está plena na beleza que amadurece na cara do espectador, compondo sua Raimunda. Seria possível dizer que é um filme sobre abuso sexual, que ocorre como uma herança mórbida e inconsciente, marcando duas gerações da mesma família. Mas não é. O assunto do longa é o verbo volver que lhe dá nome. E Almodóvar não economiza ao traduzir esse verbo.
Assim, temos um estupendo fantasma vivido por Carmem Maura, que volta, não só para limpar a casa da irmã doente, mas para refazer o laço perdido com a filha. Nenhuma tomada do longa é longínqua; tudo é próximo, a nosso alcance. Estamos dentro do filme, sentindo a textura dos seios exuberantes de Penélope, o cheiro do sangue nos paninhos brancos da cozinha e o passado determinando, como um cineasta poderoso, essas vidas.
A coragem e a liberdade de Almodóvar faz com que Raimunda reconheça a presença do fantasma da mãe pelos cheiros dos gases que ela solta. O diretor é uma espécie de Nelson Rodrigues da Espanha, só que sem nenhuma trava moral. Ele circula na alma humana do jeito que quer e como quer. Está à vontade aí. É a sua matéria, seu objeto de estudo, seu laboratório permanente.
Assim como em toda obra sua, a grande protagonista do filme é a valentia feminina, seu exemplo de superação inexorável, seja qual for mazela a ser vencida. O filme recarrega um desejo quase perdido de desatarmos nós que tecemos durante a vida. Na rica linguagem desse pensador da alma feminina estão, como verdadeiras vinhetas estéticas do tema, os moinhos de vento, os cata-ventos, marcando as voltas e a possibilidade de retorno da vida.
