Christophe Honoré leva dramédia a Cannes, com Chriara Mastroianni em inspirada atuação

O realizador do cultuado Canções de amor volta ao festival francês com Chambre 212, falando de ansiedade e lealdade

Por Rodrigo Foneca *

Chiara Mastroianni em Chambre 212.

Respeitado no universo da literatura, por romances como “Tout contre Léo” (1995), e elogiado nos palcos em seu trabalho como encenador, Christophe Honoré virou um quindim pra crítica francesa, arrebatando uma legião de fãs, quando lançou o musical “Canções de amor” (2007), aos 37 anos, sendo definido como um herdeiro de Jacques Demy (1931-1990).

A comparação com o mestre por trás de “Os guarda-chuvas do amor” (1964) veio pela maneira como ambos redefiniram o uso não realista da música como diálogo, reinventando o lirismo a partir de um diálogo com problemas concretos (e existenciais) do dia a dia. A diferença é que Honoré deu uma mão de tinta a mais nas cores existenciais de seu universo no inédito “Chambre 212”, exibido neste domingo na mostra Un Certain Regard do 72º Festival de Cannes. Agora, aos 49 anos, ele volta às telas sem música, mas carregado de romantismo, naquele que muitas resenhas definem como seu melhor filme.

Sua estrela habitual, Chiara Mastroianni tem o melhor desempenho de sua carreira nesta “dramédia” sobre uma mulhere que resolve encerrar 20 anos de casamento indo morar em um hotel, onde observa os passos de seu ex. Mas o querer é um verbo manhoso: algo pode reaproxima-los. Na entrevista a seguir, dada ao JB em janeiro, em Paris, Honoré disseca essas manhas.

JB: Muitos de seus filmes abordam o cotidiano dos soropositivos, uma escolha autoral sua que se torna mais do que oportuno neste momento em que pesquisas médicas apontam um aumento do contágio da AIDS. O que torna a doença um assunto central no seu cinema?

CHRISTOPHER HONORÉ: A caminho dos 50 anos, eu pertenço a uma geração que escapou de se infectar, mas que viveu suas primeiras experiências sexuais à sombra da AIDS, com medo da contaminação, vendo nossos ídolos gays morrerem doentes. A AIDS sempre este coma gente, como um fantasma, mas também como um balizador do desejo. E cinema vem do desejo.

JB: Você ganhou fama nos anos 2000 como um artesão do musical, apostando num registro não realista. Mas “Conquistar, amar e viver intensamente” é uma narrativa quase naturalista em seu registro do cotidiano. Como dirige talentos como o de Chiara Mastroianni?

CHRISTOPHER HONORÉ: Embora eu venha da literatura, não tenho obsessão pelas vírgulas ou pelos acentos agudos do meu texto: meu roteiro existe para ser reinventado no set. Por isso, eu não ensaio, pois prefiro trabalhar com a matéria viva da descoberta. Janto com os atores, converso com eles, dou referências do que ver ou ler e parto para um processo de interação no qual os atores personalizam a história que tenho para contar.

JB: E o que existe de singular nesta história?

CHRISTOPHER HONORÉ: A diferença do tempo dos afetos. Este filme conta a história de um amor ameaçado por impasses e fantasmas que não anda, por mais que os dois amantes se desejem.

JB: De alguma maneira, a sua maturidade pessoal e profissional pesa na amargura que há em torno dos personagens?

CHRISTOPHER HONORÉ: Estou no momento em que vejo uma série de jovens de 20 e poucos anos que me responsabilizam por sua escolha em fazer cinema por conta de terem visto meu “Canções de amor” quando eram muito garotos. Eu já estou num momento de perceber uma distância geracional entre mim e uma nova linhagem de diretores. De fato, este é um filme mais pessoal, mas por várias razões, a começar por uma reflexão sobre o que foi os anos 1990. O que fomos nos anos 1990.

JB: Qual é o seu lugar hoje no cinema francês?

CHRISTOPHER HONORÉ: Um lugar de preservação da ideia de que nem todo filme precisa ser “para todos”. Há um lugar comum na França que se opõe a uma arte mais intelectualizada, em oposição a narrativas mais sofisticadas, com a proposta de que a troca de ideias comum em nossa tradição cinéfila não tem mais lugar. Há um culto ao cinema de gênero, uma defesa de que todos nós, cineastas, precisamos investir em “produtos” de adesão coletiva em vez de apostarmos em histórias pessoais. Mas as histórias que tenho para contar não são pensadas por número de espectadores. Venho da literatura, da experiência solitária do leitor e do livro. Fazer cinema, pra mim, sempre foi uma experiência solitária, cercada de emoções conflitantes. Mas, aqui, a sensação de algo que não caminha, de uma paixão num impasse, é o que mais me interessa. E é o que eu tenho para dizer, com o máximo de sinceridade.

Sexto dia do festival

O 72º Festival de Cannes já está no seu sexto dia. Confira o que a Croisette viu de melhor até agora:

The Lighthouse, de Robert Eggers: Quatro anos depois de botar Sundance para dormir no leito do pesadelo com “A bruxa”, o bamba americano da metafísica fantasmagórica histórica dá ao 72º Festival de Cannes seu espetáculo visual mais perturbador, em critérios físicos (no PB à la Béla Tarr de Jarin Blaschke) e dramatúrgicos, com direito a ter uma criatura tão assustadora quanto o bode Black Phillip de seu sucesso anterior: uma sereia imaginária... ou quase. Desde “Cosmópolis” (2012), o galã inglês Robert Pattinson entrou numa jornada perseverante para deixar a imagem de mocinho romântico que fez dele um astro em “A saga Crespúsculo”, com foco em papéis controversos. Nenhuma de suas atuações anteriores é mais visceral do que seu desempenho como um recém-contratado faroleiro, que lida com as bebedeiras de seu mestre (Willem Dafoe, numa barbárie gutural) e com a perda de lucidez no farol onde trabalho. É um projeto com a grife RT Features, do carioca Rodrigo Teixeira. Até agora... nada que se viu em Cannes tem tanto som, fúria e assombro. Onde: Quinzena dos Realizadores

Dor e Glória, de Pedro Almodóvar: Melhor dos concorrentes à Palma de Ouro já exibidos até agora, o devastador “Dolor y Gloria” fez com que o artesão espanhol massacrasse corações em sua passagem pela Croisette. Estima-se por aqui que enfim possa ser reconhecido com a Palma de Ouro que tanto merece com a história do ocaso (e posterior redenção) de um cineasta, Salvador Mallo (papel de um grisalho Antonio Banderas) cansado da vida, agrilhoado à solidão. O desempenho de Banderas é de doer na alma, pela tradução plena da fragilidade e do desamparo: Salvador sofre de dores na coluna e tem um problema na garganta, ligado ao sistema digestivo, que pode mata-lo engasgado. No roteiro, o cineasta faz a dramaturgia se esgarçar por caminhos inusitados, incorporando até chapas ortopédicas (em forma de animação) em sua narrativa. Onde: Competição

Canción Sin Nombre, de Melina León: Baseado em fatos reais, esta trama em P&B aborda a luta de uma jovem peruana dos anos 1980 para reaver sua bebê recém-nascida com a ajuda de um jornalista. Seu principal apelo: a fotografia de Inti Briones, que diluiu todas as referências banais da representação de seu país nas telas. Onde: Quinzena dos Realizadores

Atlantique, de Mati Diop: Única diretora negra já indicada à Palma dourada nos 72 anos de história de Cannes, esta realizadora francesa de origem senegalesa faz uma radiografia de múltiplas camadas da realidade de Dakar a partir de uma história de amor ausente: com a promessa de ter se casar com alguém com quem não ama, uma adolescente espera rever o namorado, um operário que cruzou o Atlântico atrás de uma vida melhor.Onde: Competição

The Wild Goose Lake, de Diao Yinan: Raras vezes a representação da violência em sagas sobre crime ganhou contornos plásticos tão virtuosos quanto o deste thriller chinês que esbanja ação ao narrar os esforços de uma mulher para entregar um criminoso em fuga para seus detratores e, com isso, libertar-se de suas dívidas. Onde: Competição

 

Zombie Child, de Bertrand Bonello: Espécie de “Carrie, a estranha” misturado com .docs do Arte sobre macumba, o novo filme do realizador de “Nocturama” (2017) trança dois tempos (os anos 1960 e a atualidade) e dois espaços (o Haiti e a classe média francesa) a partir de um grupo de alunas adolescentes que montam uma sororidade de estudos literárias e têm contato com os mistérios ocultos de um ritual de zumbificação usado em trabalhos servis na América Central. Uma das estudantes pede a uma imigrante haitiana que exorcize seus males de amor por um namoradinho, o que deflagra um processo de assombro. A filmagem dos rituais de sincretismo afro ultrapassam os males da alteridade. Onde; Quinzena

The Orphanage, de Shahrbanoo Sadat: A diretora do ótimo “Wolf and sheep” (2016) volta às telas narrando a luta de um órfão, fã de musicais de Bollywood, na Cabul dos anos 1980. A ida dele para um abrigo soviético é cercada de dor. Onde: Quinzena dos Realizadores

 

Bacurau, de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho: Com ecos de Walter Hill e John Carpenter, a trama do delicioso concorrente pernambucano à Palma de Ouro de 2019 aborda as mudanças no cotidiano de um povoado sertanejo cuja tranquilidade é abalada com a morte de uma anciã nonagenária. É a fotografia mais requintada de Pedro Sotero. 

J’Ai Perdu Mon Corps, de Jéremy Clapin: A protagonista desta animação é uma… mão. Uma mãozinha tipo aquela da Família Addams, um tanto menos serelepe, que corre pelas ruas de Paris à cata do rapaz cujo corpo ela integrava. Onde: Semana da Crítica

Les Misérables, de Ladj Ly: De descendência maliana, Ladj Ly, francês com carreira de ator e de documentarista, mergulha na ficção a partir de um paralelo com a literatura de Victor Hugo, falando sobre um trio de policiais que se envolvem num conflito com a população de um subúrbio de Paris, com população majoritariamente negra. É a melhor montagem de todos os candidatos à Palma já exibidos: nervosa, mas aberta à reflexão das contradições sociais. Onde: Competição