Crítica - O último trago: Os belos e novos rostos

*** (bom)

Por Frank Carbone*

A premiada Samya de Lavor em 'O último trago'

Pedro Diogenes e os irmãos Ricardo e Luiz Pretti mais uma vez encaram uma empreitada juntos, depois de mais de uma década de Alumbramento, a produtora cearense (deles e de Guto Parente) que revolucionou o cinema indie brasileiro na década passada. Com muita poesia, indignação social e inquietação fílmica, a Alumbramento se tornou referência de um cinema que unia duas conjugações a princípio tão díspares, o naturalismo e a alegoria. Juntos, trouxeram potências do naipe de "Estrada para Ythaca" para a nossa cinematografia.

O trio por trás de "...Trago" é o mesmo que estava junto em "Com os punhos cerrados", outro petardo político-social de impressionantes mobilização e realização. Contribuem para essa flechada literal a delicadeza e o lirismo, adicionados a um inflamável barril de pólvora de minorias: mulheres, negros e indígenas são vilipendiados através dos tempos nesse país, passando adiante o horror da diminuição e da discriminação, do racismo, do machismo, do extermínio simbólico e factual, que o trio resolve reescrever a partir dos tempos - não específicos ou definidos, mas que formam um painel explosivo de inegável força e impacto.

Ao seu lado, o mago Ivo Lopes Araújo concebe "a fotografia de uma vida", um trabalho de ourives que tanto cria e reverbera luz sobre suas personagens quanto promove um dos nossos mais emocionantes bailados de câmera recentes, aliado a um elenco que entende e contribui para o espetáculo como um todo (tais como Samya de Lavor, Mariana Nunes, Rômulo Braga e Demick Lopes), e temos um jogo de transformações poéticas e retificação do oprimido, que ocupa lugares de reintegração de espaços, ainda que à força. Por mais que a narrativa não seja 100% de fácil assimilação, o ponto central de "O último trago" reforça seu caráter de peça transcendente sobre os novos tempos e o rosto real da mudança. *Membro da ACCRJ